Devagar como andor, que o santo não tá na caixa

Quando aparece uma oportunidade de nos mudarmos, bate uma ansiedade horrorosa. Queremos resolver tudo no mesmo dia: encontrar um novo endereço que seja a nossa cara, fechar contrato, contratar uma empresa de mudanças, providenciar o que vai ser necessário no novo endereço (por exemplo, se ele não tiver armário embutido nenhum, ou trilhos para cortinas, etc.). Como não temos muita certeza se tudo o que temos vai caber na nova casa, “melhor contratar uma empresa que tenha guarda móveis, não é?” E muitas vezes, acontece de querermos nos mudar naquela mesma semana.

Caaaalma! Pra que tanta pressa? A casa vai sair correndo de lá, por acaso? Sossegue e, antes de já começar a procurar pela empresa de mudanças, veja como pode ser má idéia fazer tudo assim, no estabanamento.

Caso 1: a pressa é inimiga do caixotão

Aconteceu com o amigo de um amigo meu (sempre assim). Ele enviou o currículo pra uma empresa grande que ficava em outra cidade e deu tudo certo: a empresa gostou do que leu, o chamou pra entrevista, gostou do que ouviu e resolveram dar uma carta de confiança. “Teje contratado, ó gajo! Começas no mês que vem!”, ouviu ele ao telefone, quando o próprio gerente ligou para informar que a vaga era dele. A gritaria foi total! Botou a cara pra fora da janela e berrou pro bairro inteiro, ligou pra namorada, ligou pra avó, ligou pro melhor amigo (esse ligou pros outros e marcou um Happy-hour pra comemorarem a vitória do amigo)… enfim: comemorou muito!

A-mudança-pode-se-tornar-um-projeto-nada-agradável-senão-for-trabalhado.Nem dormiu aquela noite, coitado. A cabeça a mil imaginando como seria trabalhar naquela empresa, como seria morar naquela cidade e… “ih, peraí… é verdade, preciso procurar um lugar pra morar, de preferência perto da empresa.” Pulou da cama e foi direto pra internet pesquisar imobiliárias de lá, bairros, comércios locais, custo de vida… Na verdade, fez uma pesquisa tão bem feita que poderia enviar em forma de relatório pra prefeitura de lá! O fato é que, no dia seguinte, entrou em contato com a imobiliária responsável pelo apartamento que lhe pareceu melhor, conversou, fechou o contrato. Saiu procurando empresa de mudanças feito um louco, achou uma boa que tinha até guarda móveis (não que ele fosse precisar, mas enfim) e acertou a mudança praquela semana mesmo. Era quarta-feira, e ele queria se mudar na sexta. Mas veja bem: a empresa deu UM MÊS de prazo pra ele fazer tudo isso, e ele cismou de resolver na mesma semana. Ansioso ou não?

Aí ele se lembrou: “preciso de caixas”. Passou em várias lojas e mercados, mas conseguiu poucas caixas, e eram todas pequenas. Aí foi a uma estação de recolhimento de lixo reciclável, onde conseguiu negociar caixas ENORMES, como aquelas de televisões antigas e geladeiras. “Ótimo, aqui cabe tudo”. E foi pra casa, feliz. Passou a quinta colocando tudo o que tinha naquelas caixas gigantes – e coube tudo, até com folga. Fora elas, o que sobrou eram móveis e eletrodomésticos grandes, que não vão em caixas mesmo.

No início da noite, o caminhão chegou para desmontar alguns móveis e adiantar o carregamento, a fim de ganhar tempo no dia seguinte. Quando viram aquelas caixas absurdas no meio da sala, perguntaram o que era – e ficaram brancos quando souberam que era a mudança. “Essas caixas são enormes e estão muito pesadas! O fundo vai romper! Melhor você colocar em caixas menores.”. Mas ele não deu ouvidos e os homens fizeram o que tinham ido fazer.

No dia seguinte, não deu outra: todas as caixas se romperam e os objetos foram carregados em sacolinhas de supermercado conseguidas às pressas com os vizinhos, em trouxas feitas com lençóis e na mão. E mais: foram descarregadas assim também na nova residência. Mas o pior é que o vizinho de porta era o gerente de RH da empresa que o contratou e viu a cena: um recém-contratado ansioso chegando de mudança na mesma semana da contratação carregando seus pertences na mão. Ótima primeira impressão…

Caso 2: suspeitas empresas, péssimos negócios

Essa foi com a colega de quarto. Ela veio pra minha cidade assim que passou no vestibular. Ela já morava sozinha em sua cidade e queria continuar assim aqui, então traria toda a mudança com ela. Como o resultado da lista de aprovados teve um atraso, ela só soube que tinha sido aprovada duas semanas antes das aulas começarem, então precisava agilizar a mudança – mas duas semanas ainda permite uma “pressa organizada”.

Mas não foi o caso. Achar o imóvel foi fácil, afinal a internet coloca as imobiliárias a nosso dispor independente da distância. Mas ela queria se mudar logo para se acostumar com a cidade antes das aulas começarem (já que o tempo para conhecer a nova cidade ficaria drasticamente reduzido). Como nenhuma das melhores empresas de mudanças estavam disponíveis para aquela mesma semana (mas estariam para a outra), ela contratou uma cuja fama não era lá essas coisas. “Ah, é só pra levarem minhas coisas pra lá, mesmo, não precisa de grandes coisas”.

Fazer-uma-consulta-antecipada-pode-ser-a-diferença-entre-uma-mudança-bem-sucedida-e-o-caos.E já começaram errado. Chegaram com duas horas de atraso e com um caminhão menor do que o combinado, o que forçaria um empilhamento nada recomendável dos móveis e caixas. Mas ela não deu muita bola, até porque conseguiu um descontinho no orçamento por causa disso. Que bom, porque essa “economia” teve que ser usada depois para comprar uns móveis novos e utensílios de cozinha já que, além do empilhamento forçado, puseram coisas pesadas sobre caixas com objetos frágeis, além de não terem evitado que alguns móveis colidissem com outros durante todo o trajeto, causando danos severos. Só não estragaram mais coisas porque, na chegada, essa colega estava com sangue nos olhos (devem ter ficado com medo – eu ficaria) de tanta raiva do resultado!

Por essas e outras é que recomendamos: vai se mudar? Faça com calma, que dá mais certo (e sai mais barato).