Dentista Moderninho!

Eu nunca tive muita paciência com cadeira de dentista, mas como também nunca tive muita paciência para escovar os dentes, acabo indo exercitar esta qualidade (que não tenho) lá na cadeira do dr. Sérgio. Sérgio, aliás, é meu dentista desde que eu era um garoto de menos de um metro de altura. Meu primeiro dente de leite foi ele quem tirou – o danado não caía de jeito nenhum -, a primeira obturação também. E ele vivia me criticando porque dizia que minha dentição era perfeitinha e que eu devia cuidar melhor ela. “Adianta ter os dentes retinhos e deixar tudo amarelo-gema??”. Claro que não. Mas também não adiantava me dar tanta bronca porque só funcionava no primeiro dia; no segundo, eu já tinha esquecido o fio dental e a escova de novo.

Isso vem desde muito tempo. Eu chegava lá e via a secretária enfurnada entre caixas e mais caixas de arquivo com os prontuários dos pacientes dele. Xingava que era uma beleza! E a minha caixa ficava num cantinho difícil demais para ela, debaixo de um mundo de outras. Coitada. Neuzinha era um barão, mas sofria com aqueles prontuários! Mas um dia cheguei lá e ela estava livre. A mesa limpa, nenhuma caixa em volta. Até o cheiro do ar ali mudou! Ela sorria como eu nunca tinha visto. “Ué, Neuzinha, cadê as caixas?”. “Ah, seu Sérgio jogou tudo pro computador, ele comprou um prontuário eletrônico para consultório odontológico e mandou aquelas fichas todas pra picar”.

Consultório Odontológico

Mudanças à vista!

Tá aí uma coisa que nunca imaginei dr. Sérgio fazer! Usar computador para controlar os prontuários dos pacientes! Ele é um cara das antigas, xingou os computadores mais de uma vez comigo na cadeira, dizendo que aquilo só servia para distrair e não sei mais o quê… “Essa eu tenho que ver”, falei, com cara de abestado.

Chegou minha vez de ser atendido e, de fato: tinha um laptop novinho em folha, muito bonito, em cima da mesa nova (a antiga era de madeira, meio mal-acabada) de madeira bruta, aspecto rústico, muito bonita. A cadeira odontológica também era nova, branca e azul clarinho, com uns aparelhos que eu nem lembrava de ter visto ali. O foco (aquele mini holofote de cegar paciente) era todo moderno, bem pequeno, mas potente de doer as vistas. O amarelão das paredes agora era um adesivo que cobria toda a parede, com uma foto de uma floresta vista do alto.. Pelo visto, o prontuário eletrônico não era a única novidade.

“Uai, Sergim (intimidade é dureza)! Quanta mudança!! O que houve, ganhou na loteria ou sonhou com dente caindo?”, disparei assim que entrei no consultório. Dr. Sérgio deu uma das suas risadas estrondosas de tremer vidraça.

“Olha aí o meu paciente favorito!! Cê reparou, foi? Então vem cá, olha só essa mesa que comprei, que joia! Mandei fazer com madeira de demolição vinda do sítio dum camarada meu. Aquela cadeira odontológica eu troquei porque a minha deu tanto prejuízo com manutenção que perdi a paciência e comprei essa. Bonitona, né? Ah! Gostou da parede? Teve um paciente que dizia que devia ter uma floresta aqui dentro para ele olhar e se distrair. Gostei da ideia e mandei fazer isso aí.”

Sistema eletrônico

Eu já estava bem maravilhado, mas ainda quis perguntar do laptop. “Ah!”, ele falou, “isso aí é porque agora eu tô moderno. Todos os prontuários dos meus pacientes estão aí nessa maquininha dos diabos. Relatório, foto, raio-x, tá tudo aí. “Cê” viu que não tem mais aquelas caixas lá na frente? É por isso. Um cara me convenceu a comprar o tal do prontuário eletrônico, me ensinou a usar e agora eu não quero outra coisa! Até atestado automático esse programinha faz!”.

Dr. Sérgio ficou tanto tempo apresentando as novidades que a consulta atrasou em meia hora – e quase o paciente que vinha depois de mim perdeu a paciência e foi embora! Neuzinha é que veio cortar nosso papo. Mas tenho que admitir, o consultório ficou outra coisa! Dava gosto ficar ali, mesmo que fosse com aquela maquininha furando meu dente. Acho que os outros pacientes gostaram também.