Crise e Ajustes

O brasileiro deve ser uma das criaturas mais versáteis do mundo, pois mesmo em crises fortes, ele dá um jeito de segurar as pontas. Nessa crise de 2015/2016, não é diferente: apesar da inflação não estar desgovernada como a dos anos 1980, o desemprego e a desvalorização do salário mínimo está forçando quem trabalha e quem perdeu o emprego a buscar outras maneiras de sobreviver, mesmo que seja na base da negociação com os credores.

É preciso fazer contas para comprar um carro.

É preciso fazer contas para comprar um carro.

Quem está passando mais aperto é quem tomou empréstimos para adquirir um bem mais caro, ou iniciou um financiamento de imóvel. Com parcelas caras e número de mensalidades a perder de vista, o desespero atingiu com força muita gente, que agora não sabe como vai fazer pala saldar a dívida. Participantes de consórcios de automóveis e outros bens ainda encontram mais tranquilidade, pois é mais fácil deixar de fazer parte de uma compra desse tipo – mas cada componente que sai do grupo complica mais para os que estão tentando permanecer (e é natural que saia mais alguém por causa disso).

Enxugando as contas

Assim que percebe que sua capacidade de pagamento está entrando em declínio, o cidadão já sabe: hora de enxugar as despesas. Senta-se com um bloco nas mãos e enumera ali todas as contas que precisa pagar, tanto as de custo fixo quanto as que costumam variar (por exemplo, caderneta de padaria). Essas variáveis ele anota com o maior valor para desenhar o pior cenário possível e se preparar para ele.

Controlando as finanças em períodos de crise.

Controlando as finanças em períodos de crise.

E aí, se senta com a família e começa a negociar os cortes. Essa parte é importante, pois o orçamento diz respeito a todos os membros, e é preciso que todos participem pois eles terão suas vidas afetadas pelos cortes de uma maneira ou de outra. É a academia que vai ter que ser suspensa por enquanto, ou a caderneta da padaria que vai ser encerrada até que a situação melhores, o consórcio de automóvel do filho mais velho que vai ter que esperar um pouco mais para ser feito, as despesas com salão de beleza da filha e da mulher, os ingredientes para o almoço que deverão ser mais simples a partir de agora. Em geral, corta-se aquele tipo de despesa que não coloca a sobrevivência da família em risco, por assim dizer. O orçamento ganha um fôlego a mais.

Mas se piorar…

O comportamento de uma crise é bem conhecido: ela não passa rápido. Em geral, leva-se dois anos ou mais para que a onda chegue ao fim. É como uma contração no trabalho de parto: a onda de dor começa fraquinha, vai piorando, piorando até chegar num pico forte de dor e, depois, vai diminuindo devagar até sumir. Uma crise não costuma “sumir”, mas a evolução dela tem uma curva parecida com essa: começa discreta e vai piorando até atingir um pico onde medidas drásticas precisam ser tomadas; depois começa a reduzir… até quase sumir. Mas como ela sempre deixa um lastro (preços mais altos que não se reduzem depois que ela passa, por exemplo), não dá pra dizer que ela foi embora de vez.

Assim, quando mesmo após esses cortes no orçamento a situação continua piorando por causa da evolução natural da crise, atitudes dramáticas passam a ser necessárias. Quem almoçava fora passa a levar marmita feita em casa e encerra a conta do restaurante; salão de beleza, nem pensar. A academia passa a ser uma hora de corrida ou de caminhada no parque da cidade (rezando para que o tênis aguente, pois vai ser difícil comprar outro); os passeios a lazer diminuem ou são extintos; o consórcio de automóveis sai da lista de possibilidades de vez e é provável que a internet e a TV por assinatura precisem ser cortadas também. Por fim, a família se encontra vivendo com o básico – e muitas vezes, deprimida por ter tido o direito a aproveitar a vida reduzido a nada, por força maior. Sim, há quem entre em depressão em épocas assim.

Mas é importante lembrar que nenhuma crise é eterna, ela sempre passa – o duro é ter paciência e jogo de cintura até ela ir embora. E como não temos alternativa (infelizmente), sejamos aquele brasileiro que não costuma desistir, e vamos em frente!