Crianças Adultas

É formidável a maneira como nós vamos mudando os nossos valores, de forma gradual, sem o percebermos. A palavra que usei tem dois sentidos, o primeiro é tremendo; pavoroso; medonhamente grande, e o segundo, que produz terror ou admiração. Estou usando o segundo, para que possamos ter uma idéia melhor da importância do assunto. Antigamente, iniciávamos nossa vida escolar por volta dos sete anos de idade, íamos até o quarto ano primário, fazíamos o período de um ano de admissão para o ginásio, depois mais quatro anos, e por fim mais três, antes de prestarmos o vestibular.

Nesta última fase, chegávamos com aproximadamente vinte anos, uma boa idade para iniciarmos a vida adulta. Assim eu o considero, valorizando a minha formação de caráter. Brincávamos, brincadeiras super saudáveis – com algumas briguinhas, é claro – até por volta dos quinze a dezesseis anos, praticamente ainda como crianças. E nossos pais acompanhavam de perto esse desenvolvimento, na maioria das vezes, bancando todos os custos de nossos estudos. Foi uma fase maravilhosa. Mãe em casa, cuidando dos filhos e dos seus afazeres, pai no banco, provendo todos os recursos necessários para a manutenção da família.

O casamento era durável, e parecia eterno. Mundo contemporâneo, progresso. A mãe deixou o lar para ir trabalhar, a maioria das vezes sem nenhuma necessidade, a não ser atender ao seu desejo de independência, e auto-suficiência e valorização da auto-estima (!?). O pai, hoje, não consegue mais o mesmo salário que obtinha no passado, por mais capaz que seja, pois a mãe deflacionou o mercado e, por este motivo, os dois precisam sair de casa para manter o padrão de consumo. Com isto, as pobres das crianças precisam ir mais cedo ainda para o berçário, lugar da educação secundária, disputar espaço com as outras, que estão lá pelos mesmos motivos. E tome disputa, por espaço, por brinquedos, pela atenção da monitora, e por aí vai.

Os pais se separam por motivo nenhum, e o casamento acabou-se, a família implodiu. Aos três anos, ela ingressa no ensino fundamental, precisa ir para outra escola, universo maior, disputas ainda maiores, e cobranças dentro de casa, e estas então matam – nota, desempenho, conquistas, resultado e retorno financeiro. A infância tornou-se um investimento caro e desnecessário. A educação primária, que era responsabilidade dos pais, estes últimos “delegaram” para as escolas, as quais, além de não terem esta responsabilidade, não conseguem nem a secundária de forma eficiente.

Quando a criança atinge os cinco ou seis anos de idade, recebe uma carga de responsabilidades de um adulto, tendo que prestar contas de seu desempenho escolar, realizar pesquisas na internet, desenvolver trabalhos em equipe, gerenciar uma micro-empresa, etc. etc. e chega ao vestibular com apenas dezesseis anos, ou dezessete. Essa diferença de apenas três ou quatro anos, fazem realmente a diferença na formação do adulto de amanhã.

Os brinquedos foram deixados de lado muito mais cedo e, como uma fruta no campo do fazendeiro moderno, que precisa amadurecer mais cedo para entrar no mercado ainda mais cedo, assim o fazemos com as nossas crianças no mundo “moderno”, acabamos com a sua doce infância e as metemos em um “saco plástico” de modernidade, para que elas amadureçam mais cedo. A infância já era. Fica a pergunta: Para que serve a psicologia do desenvolvimento para os adolescentes, se a infância não mais existe? Estamos colhendo os frutos das sementes que plantamos, amargos e azedos, além de cheios de bichos, e não podemos culpar a ninguém.