Confiança Ilimitada

Confiança não se compra no supermercado. Lealdade não se acha no bar da esquina. Procura-se cada vez mais o porto seguro, na ânsia de não sermos surpreendidos nas relações, sejam elas pessoais ou negociais.

Não adianta ouvirmos o discurso messiânico de que temos de acreditar piamente na índole divina do ser humano, mesmo após anos de credibilidade. Prevalece a impressão de que uma vez instaurada a desconfiança, cada um tem suas próprias razões e arranja desculpas para ela, principalmente quando se trata de quebrar um pacto de fidelidade.

Abrir deliberadamente as portas da nossa masmorra interna, nem sempre resulta num encontro agradável. Acontece nos momentos de solidão e reclusão interior, visto que nem sempre um é sinônimo do outro. De frente com o nosso eu, não há como mentir. É impossível admitir que dentro de nós, algo se espatifou, não dá mais para manter uma ligação com alguém.

Cobramos dos outros os valores que nos dão segurança; para nos garantirmos que o nosso todo restou íntegro. Mas, que direito temos de cobrar a fidelidade alheia, se a luta é só nossa; nada mais que uma batalha quanto à autenticidade dos nossos  propósitos?

No longo caminho do inconsciente às atitudes o processo de certeza vai se desvanecendo, se acoplando às opiniões externas, se transformando até  culminar com a verbalização das idéias e na efetivação dos nossos atos.

Sabedores da mobilidade da nossa condição humana, somos um celeiro de dúvidas que se esforça por criar um núcleo coeso,

formado pelos princípios que nos são caros.

Confiar está diretamente ligado a crer que podermos contar com quem caminha conosco. Confiança não é incondicional por natureza. Se para nós é fundamental que o seja, que contribuamos com a parte que nos cabe. Não se trata só de regar, cuidar,
acarinhar. É imprescindível conter-se em certos momentos, preservar o afeto que nos é tão importante. Ao alimentar a confiança ganhamos em troca o porto que buscamos; adicionamos mais um componente ao nosso núcleo de valores.

Não temos a prerrogativa de exigir fidelidade dos outros se o nosso próprio processo de credibilidade condiciona-se ao sabor das nossas mutações.

Se não podemos confiar sequer em nós mesmos, como exigi-lo do alheio? Relaxemos. Sejamos menos exigentes conosco e
com o outro. Que possamos domar as angústias e assim, poder usufruir melhor cada dia.