Colocar os autores pra conversar? Como assim?

Os primeiros contatos de um estudante de graduação com o ambiente científico de um artigo podem ser um pouco traumáticos. Até dias antes, ele vai ouvir muitas pessoas falando que existe várias regras a seguir, normas e tudo o mais, mas ele só terá a real dimensão da coisa quando finalmente começar a fazer a sua. Ele começa pelas referências teóricas, alugando vários livros, lendo tudo, vai fazendo o fichamento… aí começa efetivamente a escrever sue trabalho. Manda pro e-mail do orientador. E na primeira reunião com ele, já ouve: “você precisa fazer um autor conversar com o outro”.

Aí você pensa: “Caramba, mas se eles já estão todos mortos?? Isso é algum tipo de piada??”. Sua cara de interrogação é tão óbvia e gritante (a sobrancelha arqueada é que te entrega) que seu orientador resolve trocar em miúdos, antes que você sofra um ataque histérico.

Falou, tá falado

As citações e suas formalizações.Esse papo de “colocar um autor pra conversar com o outro” nada mais é do que encontrar autores que compartilham da mesma opinião a respeito de um determinado assunto (no caso, o assunto do seu trabalho). Aí você coloca um para conversar com o outro, ou seja: “Fulano afirma que pão com ovo faz bem pra saúde porque sacia a fome. Beltrano afirma o mesmo fato e ainda diz que, além de saciar a fome, pão com ovo deixa as pessoas felizes”. Percebeu? Os dois autores têm a mesma opinião geral sobre o pão com ovo, sendo que um, além de concordar com o outro, ainda reforça a afirmativa com uma outra informação.

É possível, ainda, achar autores com pontos de vista diferentes sobre determinado assunto mas que, num conceito geral, acabam pensando a mesma coisa. Por exemplo: “Fulano afirma que pão com ovo deixa as pessoas felizes; já Beltrano é categórico em dizer que pão com ovo engorda mas que, se o comensal fizer exercícios, não há problema algum em comer pão com ovo se ele gostar dessa iguaria”. Essa diferença no ponto de vista que acaba por terminar na mesma conclusão não é problema e pode até enriquecer a monografia, mas é importante que você opte por um dos lados, senão vai perder o fio da meada.

Problemático é quando você encontra autores que discordam em relação a um tema e você quer inserir ambos em seu trabalho. Aí você vai ter um problema: ou você está totalmente perdido, ou você quer expor os dois e provar qual deles está certo. É possível, mas extremamente arriscado, ao menos numa monografia de fim de graduação, quando o raciocínio científico do aluno não está suficientemente amadurecido pra uma empreitada como essa. Provar que um autor está certo ou errado exige MUITA leitura, MUITA pesquisa, MUITA discussão e um senso crítico de mestre – e nem sempre isso dá certo. Se você tem pique pra uma aventura dessas, é melhor deixar pro mestrado, hein?

Mas de que isso adianta?

Deixar os autores conversarem é uma forma de você dizer: “olha aí. Tá vendo? Eles concordam com meu ponto de vista!”. Se forem autores de renome, especialistas naquele assunto, tanto melhor – e se forem recentes (e de preferência ainda vivos), melhor ainda! É como se você tivesse o aval de pesquisadores muito importantes que, se fossem perguntados, diriam que você está coberto de razão. Sacou?

Pode parecer complicado mas nem sempre as citações são um problema para monografias.Você certamente terá problemas se escolher uma área com poucas pesquisas realizadas – ou pior: nenhuma. Nesse caso você precisará procurar por autores que escreveram sobre áreas correlatas. Por exemplo: nenhum escreveu sobre pão com ovo, mas vários já escreveram sobre pão e outros tantos já escreveram sobre ovo. O jeito é ler as pesquisas destes e, com base no que eles concluíram, traçar a SUA própria conclusão sobre a felicidade que a soma pão+ovo pode proporcionar.

Viu como não é tão complicado? A maior parte será, mesmo, encontrar autores que concordem entre si e que corroborem com a teoria que você quer provar; muitas vezes, isso exige horas de leitura. Prepare-se pois também há a possibilidade de só achar autor negando a teoria – aí você escolhe entre passar a negá-la também (após análise crítica, lógico) ou tentar provar que todos esses autores estão errados. Como já dissemos, é melhor deixar isso pro mestrado. Ou quem sabe pro doutorado? O importante é se empenhar num trabalho que você possa cumprir no curto período de uma monografia de conclusão de graduação, para conseguir fazê-lo bem feito. Confie no seu orientador para orientá-lo sobre os rumos que o trabalho está tomando e não vai ter erro!