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A Mais Pura Verdade

O semáforo fechou. O menor que dirigia o Corolla engatou uma ré o estrago estava feito no carro que esperava abrir o sinal. Fuga e substituição do inexperiente motorista e o chamamento da galera para restabelecer a “verdade” e o novo cenário. Alguém que estava numa esquina próxima viu claramente o adolescente dar ré e bater no carro de trás. A testemunha foi agredida pela ousadia de querer restabelecer o acontecido. O mais irônico foi ter que ouvir: “O velho, além de barbeiro, bateu atrás e acha que tem razão”; como consenso na multidão então formada com o acidente.

Quando algo parece evidente aos olhos da maioria, o autor passa a vítima num piscar de olhos. Ao embasar sua afirmação na aparência e induzi-la pelo que é comum em situações parecidas, carreia para si a prerrogativa da verdade e da razão. Daí em diante é quase impossível desenrolar o nó que se avoluma com base numa premissa falsa, mas com cara e elementos agregados que lhe conferem o viés de autenticidade.

A crença na verdade começa quando se duvida de tudo o que se acreditava até então. Quem não participou da origem, tende a rever posicionamentos e admitir probabilidades do outro ter razão. Preferimos a incerteza, já que odiamos um pouco a verdade por causa da idéia de precisão que lhe é inerente. Se não sabemos do que se trata, sustentar algo que aparenta o contrário é temeroso; pode trazer conseqüências indesejadas. O fato de não termos sido a causa ou os efeitos não chegarem até nós, conferem-nos uma imunidade material. Principalmente se somos indiferentes por opção ao que acontece ao nosso redor, acostumados que estamos ao lusco-fusco e se coisa clarear muito, a luz intensa interfe na nossa rotina incomoda-nos além do necessário e assusta a nossa mente.

Ante o recuo ou intimidação, o autor é beneficiado com a cumplicidade de quem está ao redor.   A inexperiência com a mentira faz com que se tome a verdade aparente como antiga e conhecida e olham de soslaio, como quem quer roubar um bem comum a todos; as meias verdades são mais cômodas e seu autor, diante de tal manifestação e adivinha facilmente o que conseguiu elaborar bem e o que não.

Voltamos à pequenez quando fazemos recair a culpa nos outros; estamos no caminho da verdade quando só nos responsabilizamos a nós mesmos; “mas o sábio não considera ninguém como culpado, nem ele próprio, nem os outros”[i], disse Epicteto, filósofo grego há 1900 anos atrás. Continua atual e precisamos fazê-lo ao nosso ouvido, para que acreditemos primeiro. É um murmúrio solitário em meio à praça tumultuada.

Os sentidos nos enganam e nos fraquejam. Para nós só é verdadeiro o obstáculo contra o qual nos batemos e isto nos basta para se vangloriar de saber todo o contexto e donos da verdade e da razão. Mas nem sempre nossa inteligência entra em ação para entender e captar o todo. A primeira impressão é que fica, como se a realidade fosse imutável. Empédocles[ii], filósofo pré-socrático diz que “Verdade é apenas o que pode alcançar a compreensão de um mortal. Não é uma verdade absoluta, mas proporcional à medida humana”. Verdade, que exigimos e utilizamos no comércio moral onde repousa toda a vida em comum, iniciando uma série de mentiras recíprocas. A visão de mundo que incorporamos ao aderir sistematicamente grupo vencedor leva-nos à convicção de que verdade e mentira são de ordem fisiológica. A essência da verdade é julgada segundo os seus efeitos e estes por sua vez conduzem à admissão de verdades não demonstradas.  Ao combatê-las, mostramos a necessidade de encontrar outra via e a lógica é o caminho usual, porém inadequado como único guia, por restringir aquilo que é possível saber -segundo os efeitos – e assim, produz a mentira. A lógica tem dificuldade de denominar com exatidão, tornando-se incompatível com a veracidade.

Corroborando com a inverdade, pela obrigação de mentir segundo uma convenção firme, vale aqui a lembrança de refletirmos moralmente, sobre o modo como esquecemos as coisas que nos dizem respeito. Sim, mesmo agindo inconscientemente da maneira designada como verdade, mentimos.


[i] Nietzche – A Filosofia na época trágica dos gregos – Editora Escala

[ii] Nietzche – ; Miscelânea de Opiniões e sentenças – Editora Escala

O Amor de Deus

O Amor de Deus

O Amor de Deus

A Bíblia nos traz uma rica definição do que é o amor, e ela se encontra, entre outras passagens, no capítulo treze, da primeira carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios. Em poucas palavras, vamos tentar entender um pouco o que aquela descrição pode conter no seu recôndito.

Analisemos o texto, então, para ver se ele se enquadra no que nos entendemos hoje por amor. Paulo começa dizendo “Passo agora a mostrar-lhes um caminho ainda mais excelente” para, em seguida, ele demonstrar o seu entendimento sobre a indispensabilidade daquele sentimento em suas ações cotidianas: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá”, em ato contínuo, ele passa especificamente à descrição do amor: “O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca perece…”.

Isto me parece uma descrição de Deus, o amor ágape. Muito antes da fundação deste mundo, o Senhor já havia criado seres excelentes, os Querubins, os Serafins, os Arcanjos e os Anjos. Todos santos e dotados de grande poder. Tão poderosos, que apenas um deles, em apenas uma noite, matou cento e oitenta e cinco mil soldados de um poderoso exército inimigo de Israel. Deus pelejava por seu povo, por amor. Então Ele criou o homem, à sua imagem e semelhança, um ser diferente de todos os outros até então criados, para que nele Ele pudesse se derramar. Matando-se a si próprio, para que não houvesse condenação para todo aquele que crer no Seu vicário sacrifício, demonstra a mais perfeita faceta do Seu amor pelo ser que Ele criou para nele se derramar.

Deus queria um amigo, que pudesse amá-lo sem nenhum interesse particular, que o adorasse pelo Deus que Ele é. E nos deu tudo de graça, para que nos alegrássemos na Sua gloriosa presença e, para nos garantir a vitória sobre a morte e o inferno, nos deu do Seu próprio Espírito, para que sejamos cheios de poder, a fim de que possamos resistir nos dias maus e aos ataques dos inimigos, até que alcancemos a vitória definitiva, e tenhamos a vida eterna ao seu lado. Fez-nos seus herdeiros e co-herdeiros com o Seu Filho Unigênito, de todas as coisas. Todas, sem exceção. Ainda que o tenhamos açoitado, cuspido em Sua face, coroado Ele com espinhos, batido em Seu rosto, para depois pendurá-lo em uma cruz, Ele está de braços abertos nos aguardando, esperando que o reconheçamos como Pai amoroso e saudoso dos tempos em que conversávamos com Ele, no jardim do Éden, que Ele mesmo criou para nós. Ele espera, pacientemente, pelo retorno do filho pródigo. Podemos, agora, refletir no que nós entendemos por amor?

O Homem e a Educação

O homem é um ser destinado ao saber, pois é o único animal que pensa, raciocina e tem noção que está incluído no mundo. A educação é algo fundamental e necessária para entender o sentido metafísico que o faz pensar, e decorrente desta faculdade exclusiva de todos os seres humanos desencadeiam a criatividade.

A capacidade de decifrar enigmas está em todos os seres humanos, a capacidade de pensar e raciocinar é um atributo adquirido pelo saber, que é a causa de todo o processo educacional. Somente aquele que foi educado, pode alcançar a esta façanha, de um determinado problema encontrar a resposta e a solução, ora, as soluções de todos os problemas estão contidos no mesmo problema.

Um enigma clássico que a está exposto sob a luz da razão começa com a lenda de Édipo e a Esfinge. A Esfinge era um monstro, que a deusa Juno enviara a Tebas, por achar-se irritada com os tebanos. Este monstro tinha a cabeça e o peito de uma jovem, garras de leão, corpo de cachorro, cauda de dragão e asas de pássaro. Fantástico não é mesmo? Este personagem lendário supostamente ficava às portas de Tebas, e saía para atacar os viajantes, e propor-lhes enigmas difíceis, estraçalhando aqueles que não conseguiam a resposta desejada.

O enigma proposta pelo monstro era o seguinte: “Qual é o animal que tem quatro pés pela manhã, dois ao meio dia, e três à tarde?” A Esfinge perderia vida desde que alguém muito sábio pudesse decifrar o enigma. Muitas pessoas já haviam morrido vítimas do monstro, e a cidade vivia sob constante vigilância com medo do perigo.

Mas houve um homem chamado Creonte, que assumiu o governo de Laio, anunciou que entregaria a mão de sua irmã Jocasta, viúvo de Laio, e sua coroa, aquele livrasse Tebas das ameaças do monstro. Édipo apresentou-se para tentar decifrar o enigma: disse que o animal era o homem, que, em sua infância, portanto pela manhã da vida, sustentava-se com os pés e as mãos; ao meio-dia, na faze adulta, firmava-se sobre os dois pés; mas, à noite, ou seja, na velhice, tinha a necessidade de uma bengala supondo uma terceira perna. A Esfinge desarvorada lança-se pelo precipício e morre. Sob este fato mitológico, se pergunta: o que é então o homem?

Um dos pensadores mais influentes na área do saber, Pierre Teilhard de Chardin diz o seguinte: “Pela expressão fenômeno humano entendemos o fato experimental da aparição, em nosso Universo, do poder de refletir e de pensar.” Somente numa época relativamente recente, a espontaneidade e a consciência conquistaram sobre a Terra, na zona da vida tornada humana, a propriedade de isolarem-se diante de si mesmas. O homem sabe que sabe. Ele reflete, pensa e raciocina o mundo em derredor.

A ciência ainda não chegou a uma conclusão definitiva de onde o homem teria surgido, hipóteses acerca de que teria surgido do macaco, mas existe outra perspectiva interessante é aquela que coloca o homem ante as dimensões do universo, como faz o escritor Camilo Flammarion em sua obra Astronomie Populaire. Diz ele: “O universo visível, com seus cem milhões de sóis, representa apenas uma pequena parte infinitesimal do universo total, infinito; é uma vila numa província, ou menos ainda; por outro lado, milhões de anos ou mesmo milhões de séculos por que ensaiamos exprimir o desenvolvimento progressivo das nebulosas de sóis e dos mundos, representam apenas um instante rápido na duração eterna.”

Existe toda uma problemática que envolve o universo como tentativa de explicar a existência humana, o cosmo que se apresenta como infinito e com seus milhões de sóis, as teorias recentes demonstram que o universo é finito, que depois do universo está o caos, a desordem para os antigos gregos; o caos é uma grandeza em que a razão humana não consegue contemplar ou até mesmo imaginar. O caos aqui mencionado está fora dos limites supremos da imaginação.

Estas contemplações ajudam-nos a compreender verdades ainda desconhecidas a respeito da criação de todas as coisas, mergulhar nesse mundo de descobertas, desperta a imaginação para o senso criativo, de explorar e decifrar os enigmas que envolvem a nossa existência, perguntas filosóficas ainda persistem: “de onde viemos e para onde vamos?” Os físicos tentam explicar a matéria e suas formas, os cientistas de como o cérebro funciona. Não é de se estranhar que a maioria dos homens morre sem duvidar destas grandezas, sem ao mesmo sonhar a magnífica realidade que envolve o conhecimento do Cosmos.

Mas se pergunta o que é o homem diante da natureza? Um nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um meio entre nada e tudo. O mistério acerca da vida humana é ainda inexplorado, o homem é um abismo de mistérios, apenas com a visão de alguns pensadores, conseguimos desfrutar de um mínimo destas questões que envolvem a nossa existência e nosso ser.

Assim como escreve Pascal: “O pensamento faz a grandeza do homem. O homem é apenas um caniço, o mais frágil da natureza; mas é um caniço pensante”. Cogito, ergo sum. Penso, logo existo – diria Renè Descartes. O pensamento revela a existência do homem a si mesmo. Podemos duvidar da existência do mundo exterior, assim como adverte Descartes que o mundo externo é apenas um sonho, uma alucinação. Mas, se duvidamos, pensamos, pois para duvidar e necessário pensar; e, se pensamos, existimos como ser pensante.

Há idéias divergentes com o pensador dinamarquês Soren Kierkegaard propondo o seguinte: “Penso, logo não sou”, pois o pensamento humano se caracteriza fundamentalmente pela capacidade de colocar problemas. E o problema decorre exatamente do fato de o homem viver numa situação contingente. Segundo Kierkegaard, o homem constitui de um ser inacabado, que está em constante formação, o homem só deixa de conhecer quando morre.

Contemplando a uma resposta mais plausível o homem é, permanentemente, uma composição de sua natureza manifestada espontaneamente, e de suas idéias elaboradamente assentados. Somos, assim, em parte a expressão do que em nós está impresso pela natureza do nosso ser, e de nossa constituição, mas de outra parte somos igualmente o fruto daquilo que idealizamos ser. E aceitando estas considerações, podemos assumir uma nova consciência em relação ao homem e sua formação, impor no espírito a busca por novos conhecimentos é dar um passo adiante, em relação aos primórdios da humanidade, hoje podemos nos orgulhar com os níveis de informações que possuímos, recebemos uma educação de acordo com as nossas expectativas, ao contrário, dos medievais, principalmente, a educação era restrita somente aos nobres, ou aqueles que ingressavam na vida monástica.

A educação, do ponto de vista histórico, consiste no conjunto de técnicas e valores de uma cultura, que são transmitidos de maneira institucional às novas gerações. O problema começa a ser pensado quando passamos a ter noção do que o homem tem feito de si mesmo, no decorrer da História. Mas o homem de hoje não possui as mesmas características do homem medieval, assim como a mentalidade do mundo grego em relação aos orientais, da maneira de pensar dos romanos em relação com o Renascimento. Cada período da História apresentou um ideal predominante de educação, o que vale dizer, que em cada momento da História o homem procurou construir-se a si mesmo dentro de um ideal diverso.

Assim como as diferentes culturas, manifestam uma maneira inversa de expressar a herança de sua educação, e em vários níveis de manifestação como as civilizações do antigo oriente estavam dominadas pelo espírito do pessimismo, fundado na convicção da fatalidade. O culto religioso parecia à única evasão da submissão a todas as forças da natureza, e os caprichos dos soberanos e dos que tinham na força o argumento do poder. O sentimento de escravidão conduzia o homem a um misticismo do desprendimento absoluto, da atitude de mortificação da vontade, da negação do mundo. A felicidade estaria em não desejar, em não possuir vontade alguma, e fugir assim aos ciclos dos padecimentos a que se sujeitavam todos os que ousavam alguma coisa do mundo.

Portanto, a civilização grega passou a apresentar uma nova valorização do homem, procurou conciliar a convicção da fatalidade com o sentimento da liberdade. O homem grego, de um modo geral, tem o sentimento de que não lhe cabe o sucesso, pois o sucesso depende, para ele, do capricho dos deuses; ao homem cabe o esforço, aos deuses – o sucesso.

O homem grego não acreditava na fatalidade. Cultuava a fama assim como a vitória moral, há assim, um sentido de dignidade e de nobreza na concepção do homem grego, desde o período homérico, sendo que este testemunho dos primeiros tempos históricos da Grécia marcou os ideais da educação grega nos seus períodos posteriores.

A filosofia que é fruto do solo grego, conhecido também como o milagre grego, elaborou uma nova visão do mundo e da natureza de uma forma geral, o homem mais uma vez entra na sua concepção reflexiva, agora o antropos é uma preocupação essencial dentro da filosofia que caminha em direção do senso crítico e reflexivo de todas as coisas. Este é o verdadeiro legado cultural, que envolve toda a manifestação de educação e criatividade que os gregos nos deixaram. Assim como escreve Ravaisson, a filosofia deu um novo sentido de dignidade, um passo de liberdade, o desejo supremo de conhecer os princípios universais diretores da ordem do universo é o mesmo desejo de ser livre, que, desta forma, na contemplação deste princípio, desliga o homem da prisão do simples imediato, e lhe dá a experiência da liberdade na medida em que ele consegue compreender a realidade, consciente de sua posição no cosmos.

A História toma um novo rumo. A civilização romana foi à civilização do Direito. As primeiras povoações romanas forma constituídas de lavradores: a vida no campo, o trabalho junto à natureza, a paciência diante das variações de clima, a humildade diante das incertezas da colheita, tudo isto contribuiu para a formação de um caráter vigoroso, marcado pela sobriedade, simplicidade e persistência.

Quando se realizou o desenvolvimento cultural romano no setor intelectual, o homem romano haveria de informar este desenvolvimento no sentido de uma especulação que atendesse a este espírito de justiça e equidade: da conjunção destes dois elementos surgiu este monumento da cultura, que é o Direito Romano.

Na Idade Média, por longos séculos, procurou conduzir o homem para seu destino sobrenatural. Crescia uma preocupação com a salvação do homem, esta idéia defendida pelo cristianismo. E isto fez com que a atenção do mundo cristão se deslocasse da idéia de Deus para a idéia de homem. A princípio, o culto de Deus centralizava tudo, e a salvação do homem seria uma conseqüência.

O Renascimento aparece, com um novo modo de pensar as condições do mundo, deixando para trás as aberrações medievais, em que o homem não podia expressar sua criatividade pela censura vingativa da Igreja Católica. É no Renascimento que há uma verdadeira rebelião contra o sobrenatural, ao mesmo tempo em que se firmava a confiança nas forças exclusivas da natureza humana. O homem pensa, então, em construir sua salvação num plano meramente natural e não sobrenatural. O primeiro passo é a exaltação da razão humana, a crença que a razão humana possui poderes ilimitados de criatividade.

Após este rompimento com a idade das Trevas, assim considerada por alguns eruditos, o que foi a Idade Média, reacende uma nova visão dentro do mundo intelectual que é marcado pelo Renascimento, que favoreceu a cultura e ao progresso da criatividade que viria a trazer uma nova forma de contemplar o mundo.

A educação renascentista voltada para o prático viria a desempenhar a tecnologia. A crença nos poderes ilimitados da razão desenvolveu máquinas que pudesse substituir todo o esforço humano. A educação caminha para as novas invenções que pudessem favorecer a vida do homem. Sobretudo, na Idade Média se cogitava a construção de uma máquina que deixasse de lado o árduo trabalho do homem para gozar da liberdade e do lazer.

Rompendo com a grade curricular, agora um pouco defasada para o progresso educacional que o Renascimento despertou nas mais variada classes, o trivium e quadrivium foram extintos, a ciência ocupa um lugar especial e novas áreas do saber surgem facilitando e favorecendo o os níveis da criação humana.

As escolas públicas surgem e todas as pessoas possuem o acesso ao saber, surgem grandes pensadores que torna mais acessível o saber, a exemplo de Voltaire e Diderot, que compuseram as primeiras Enciclopédias. O uso do latim colocado em segundo plano, a educação era mais acessível na língua vernácula. O Renascimento trouxe uma nova perspectiva no desenvolvimento cultural que reflete até na Era Contemporânea, abrir os olhos da razão, para a criatividade e o interesse educativo para mentes brilhantes despertou um pouco tardio, o que poderia ter começado bem antes, se não tivesse o intrometimento da Igreja, que estava voltada para a salvação do homem, deixando escondidos os poderes criadores da razão humana.

Síntese da Compreensão Filosófica da Pessoa

A compreensão filosófica ou transcendental é, exercida no nível conceptual no qual se constitui propriamente a categoria e no qual o discurso dialético articula seus elos para ordenar-se como discurso ontológico, como lógica do ser na sua estrutura e no seu movimento.

No nível das estruturas, a categoria do espírito assinala o termo dialético do discurso naquele nível quanto ao seu conteúdo, pois a noção de espírito é homóloga à noção de ser e, portanto, de infinito. No nível das relações a categoria da relação transcendência alcança o limite supremo do ser relacional do homem, referindo-se ao Absoluto. No nível da unidade, a categoria de realização exprime a unificação do homem na determinação última do seu ser que é a existência. A categoria de pessoa, pode ser designada, no sentido literal do termo,  métodos (caminho). A categoria de pessoa imprime em cada uma das que as procedem ao selo da inteligibilidade radical do ser-homem, vem a ser, o selo da pessoalidade. Do corpo próprio ao movimento da auto-realização, passando pelo pisiquismo, pelo espírito, pelas relações de objetividade, de intersubjetividade e de transcendência, e a marca do pessoal que dá a cada uma dessas expressões do sujeito uma significação propriamente humana integrando-as na unidade ontológica definida pela adequação inteligível entre sujeito e ser.

Todos os seres que conhecemos se caracterizam por sua forma. Trata-se de uma noção absolutamente universal, sem a qual a realidade não poderia ser representada nem pensada. A forma distingue, organiza internamente e relaciona entre si os seres. O dinamismo ais profundo do ser orienta-o a adequar-se à sua forma, a realizá-la plenamente. Mas, esse ser em razão da forma e esse operar em vista de forma é, nos seres que conhecemos regidos inteiramente pela Natureza e determinados por suas leis. O homem é um ser natural, a submissão da sua forma ao determinismo natural não define, para o homem, a essência e o finalismo do seu ser enquanto propriamente humanos. Pelo estatuto natural da sua forma, o homem é dado a si mesmo na complexidade das suas estruturas somática, psíquica e espiritual, do seu estar-no-mundo e do seu estar-com-o-outro, do seu abrir-se para a transcendência. Mas, o que caracteriza essencialmente o homem é o movimento, que podemos denominar dialético, de passagem da forma natural que é dada – e, nesse sentido é a natureza do homem – à sua forma propriamente humana. O homem é o artífice ou o artista de si mesmo e sua primeira obra de arte que, para a imensa maioria é a única – aquela cuja feitura se prolonga para cada um ao longo de toda a sua vida – é a sua própria existência como homem. O homem, não existe como dado, mas como expressão.

Compreender filosoficamente o home como pessoa significa, pois, tematizar essa identidade mediatizada do sujeito consigo mesmo e mostrá-la como termo e princípio de inteligibilidade do movimento de auto-expressão – que é movimento de autoconstituição – pelo qual o homem assume a tarefa fundamental que o define como homem, sendo expressão de si mesmo.

O conceito de pessoa, tal como se formou na cultura ocidental a partir do Cristianismo, era desconhecido ao pensamento antigo. Desenvolvendo ao longo do pensamento antigo, a metafísica do Espírito pode ser considerada, segundo as quais se desenvolveu no neoplatonismo, a mais nítida prefiguração do conceito de pessoa no pensamento clássico, antecipando alguns traços que esse conceito receberá no pensamento cristão. Sendo o homem antigo definido como lógon échom, como portador do logos, finalmente forçado a abandonar a sua existência à obscuridade do acaso ou à necessidade do destino, e a fazer consistir a sua mais alta perfeição na contemplação ( theoría) da realidade ideal, e no esforço para elevar-se acima da contradição entre a contingência e a necessidade, da qual é tecida a trama do mundo sensível.

O aparecimento da noção de pessoa no terreno entre o logos grego e o logos cristão, no momento em que este é obrigado a pensar e a formular suas certezas fundamentais – em suma, a transpor a fé em teologia, no curso de uma profunda transformação do substrato semântico da língua filosófica grega, sobretudo do próprio termo que será posteriormente consagrado de prósopon = persona. Este, ao emigrar da linguagem teatral, depois jurídica, para a linguagem da teologia e depois da filosofia, caminhará para o pólo oposto à sua significação original: em lugar de “máscara” ou “título” passará significar a totalidade do sujeito na sua, mas radical originalidade ou n própria raiz do seu ser que é, como tal, incomunicável e irrepresentável.

Se a grande aporia do pensamento antigo foi a impossibilidade do pensar a comunicação da inteligibilidade universal da essência à singularidade da existência, o pensamento cristão-medieval viu-se aqui diante da aporia inversa, qual seja a de preservar a inteligibilidade da existência singular – da pessoa – na relação de criaturidade e como objeto da eleição salvífica por parte de Deus, seja em face da contingência do existir empírico e do livre-arbítrio, reconhecida como paradigma primeiro de inteligibilidade.

A novidade da Idéia Moderna de sujeito, que acabará conferindo ao pensamento de Descartes e dos seus sucessores uma inconfundível originalidade em face do pensamento medieval e antigo, entre outras características que a distinguem, no intento nela presente de apresentar uma solução radical á aporia resultante da oposição entre essência e existência. A primazia da existência no pensamento cristão-medieval retirava aparentemente do home o predicado da autarqueia, do livre domínio de si mesmo, suspendendo-o à vontade criadora e salvífica de Deus como Existente Absoluto. A idéia de sujeito na filosofia moderna pretende resgatar o home da contingência e do destino de um lado e, de outro, elevá-lo à dignidade de causa e razão da própria existência inteligível ou do seu ser racional. A evolução do conceito filosófico de pessoa ao longo do ciclo da modernidade continua dominada pela aporia que Kant formulou exemplarmente através da distinção entre o homem “ser da natureza” e o home “ser racional”, nela opondo de modo aparentemente inconciliável o “empírico” e o “racional”, o” natural” e o “transcendental”. Suprindo-se qualquer comunidade analógica com o Absoluto transcendente em razão da dependência criatural e conseqüente participação no se, coloca-se sobre a pessoa humana ou sobre o perfil ideal e normativo da sua existência empírica, o enorme peso ontológico de ser a criadora de si mesma e do seu mundo: da verdade e do bem, dos valores e dos fins. A fragmentação do sujeito nas ciências humanas e o reconhecimento, no âmbito do paradigma fenomenológico, de “regiões de objetividade” que são correlatos irredutíveis da estrutura intencional da consciência, anunciam o destino problemático da pessoa no horizonte da pós-modernidade. A pós-modernidade se caracteriza pela fragmentação dos discursos unitários e demonstrativamente construídos que se apresenta, desde as origens gregas da razão, como o alvo de sua ambição sistemática; e pela “desconstrução” dos princípios fundadores e ordenadores desses discursos, tanto os transcendentes como Deus e as noções “transcendentais” na tradição clássica, como os imanentes como o sujeito e sua atividade a priori na filosofia moderna. A pós-modernidade proclama, pois a dissolução, por obra das ciências humanas, do objeto-homem, tendo sido entendido como um dos seus sinais percussores o anúncio da “morte do homem”.

Como observa Paulo Meneses, é justamente no momento em que a prática social e política e mesmo as aparições culturais da s nossas sociedades, sobretudo daquelas que agora avançam para ocupar seu lugar na cena a história – ou para tornarem-se sujeitos da própria história -, fazem da pessoa humana e dos seus direitos um valor-fonte e uma Stella rectrix da sua rota civilizatória, que a pós-modernidade empreende essa multiforme “desconstrução” da idéia do homem. Ela parece participar assim como momento da negação ou como reverso da medalha, da mesma lógica que conduziu a modernidade á afirmação da autonomia absoluta do sujeito, dotando-o do predicado da aseidade ou da prerrogativa de ser causa et ratio sui, reservados pela Metafísica clássica ao Absoluto transcendente.

A pessoa, cujos traços se desvanecem no horizonte da pós-modernidade, só poderia tê-los reconstituídos se, diante do home do terceiro milênio, o campo dessa tensão voltar a ser um campo de experiência vitalmente decisiva para o seu existir histórico. Quando, em suma, a lógica do imanentismo absoluto cumprir o seu ciclo e deixar de ser o espírito da civilização do Ocidente.

Ao longo do caminho percorrido pela Antropologia Filosófica, e que agora toca o seu fim, a tensão entre o momento eidético e o momento tético manifestou-se em cada uma das categorias que elevaram o nível do discurso filosófico os aspectos fundamentais da auto-expressão do seu ser que o home m designa na pré-compreensão.

O contorno eidético da categoria de pessoa, sendo esta a síntese das regiões categoriais que a precederam, síntese da essência e da existência, é limitado por um lado pela linha de conceptualidade unívoca das categorias (“corpo próprio”, “psiquismo”, “relação de objetividade” e” relação de intersubjetividade”) que exprimem o homem como ser situado no mundo e na história ou nos campos do fazer e do agir. Mas, por outro lado, é aberto pela conceptualidade analógicas das categorias (“espírito” e “relação de transcendência”) que referem o home à infinidade do Absoluto pela atividade da contemplação. Assim, o momento eidético da categoria de pessoa exprime como que o clímax dessa tensão conceptual que percorre todo o itinerário dialético da Antropologia Filosófica. A noção de pessoa é, e si mesma, uma noção analógica, essa estrutura analógica este presente na definição lapidar com que Tomás de Aquino resumiu Boécio: subsistens in rationali natura. A subsistência exprime a incomunicabilidade radical com que a pessoa é em si mesma unidade absoluta, não partilhada de outro ser. A natureza racional exprime a universalidade radical com que a pessoa, na sua natureza espiritual, está aberta ao acolhimento de todo o ser.

O retorno do discurso sobre si mesmo ao alcançar a categoria de pessoa mostra as peculiaridades de sua estrutura dialética no âmbito dessa categoria. O princípio da limitação eidética, aplicando-se aqui o eidos total do ser-homem, configura esse eidos como a resposta adequada à  amplitude da pergunta “ que é o homem?” em virtude desse princípio, o discurso se autolimita, tendo encontrado ser termo na categoria de pessoa e permitindo a dupla leitura da inteligibilidade para-nós e da inteligibilidade em-si.

Ao totalizar o discurso antropológico, a categoria de pessoa não somente mostra o home  aberto à universalidade do ser a partir da particularidade da  sua situação corporal no aqui e agora do mundo. Desde essa altitude inteligível alcançada pelo discurso antropológico ao encontrar seu termo e sua síntese na categoria de pessoa e que permite a leitura da seqüência de suas categorias seja segundo o ordo cognoscendi seja segundo o ordo essendi, podemos organizar a nossa compreensão do homem como pessoa segundo os dois movimentos da ascensão e da descida que, desde a sua utilização por Platão, constituem uma das formas possíveis no exercício do pensamento dialético. A continuidade desses s dois movimentos e a identidade do terminus ad quem e da ascensão e do terminus a quo da descida, ambos sendo constituídos pela mesma categoria de pessoa, mostra-nos, por um lado a identidade do Eu. Finalmente identificadas na categoria de pessoa a manifestação do Eu no seu Eu pessoal, o microcosmo humano pode ser descrito segundo a continuidade ascendente e descendente dos níveis de ser, que nele se unem, sem se confundir, em síntese admirável, enunciada nessa única preposição: o homem é pessoa.

A Música das Esferas

Quem de nós não se lembra do famoso Teorema de Pitágoras? Pois é. Mais conhecido como matemático, Pitágoras, passeava pelas diversas áreas do conhecimento, na ânsia de  um entendimento da existência humana e do universo, que fugisse ao olhar  mitológico do século 538 a.C. Conta a lenda[i] que ao ouvir um ferreiro, identificou no golpear dos ferros com diversos martelos diferentes, sons harmônicos. Quis descobrir o que distinguia os tons e notou que a diferenciação não dependia da força do golpe, do feitio dos martelos ou dos variados tipos de ferro golpeados. Pesou os martelos e percebeu que o peso de quatro deles estava numa proporção de 12, 9, 8 e 6. Prosseguindo a experiência, fixou um prego na parede, amarrou quatro cordas idênticas em material e comprimento e pendurou na extremidade de cada uma, pesos iguais aos dos martelos do ferreiro.   Tocou duas cordas ao mesmo tempo, ora um par, ora outro. O martelo mais pesado tinha o dobro do mais leve e lhe forneceu a oitava mais grave.  Os princípios da aritmética e o conceito de média harmônica o fizeram compreender a razão pela qual os outros dois martelos produziam exatamente as demais notas da escala. Bingo! Tinha descoberto o fundamento matemático da música.  Daí para frente o mundo conheceria o Pitágoras músico.

A música era vista pelos gregos como uma disciplina moral na educação, um freio nas partes físicas e agressivas da mente. Pitágoras purificava a mente de seus discípulos através da música, usando de melodias adequadas, no intuito de refrear angústias, compaixão, ciúme, traumas. Para ele, a psique humana era uma harmonia de razões que imitava a ordem e o restante do Cosmos.  Ao descobrir os intervalos musicais visualizou uma correlação mística entre a aritmética, a geometria, a música e a astronomia.  Estudando os planetas e as estrelas, associou-as a números e seus movimentos pareciam dotados de uma inteligência divina. Os corpos celestes movendo-se pelo espaço produziriam sons, a música cósmica ou música das esferas. Girando sem cessar, aconteceriam harmonias sem intervalo silencioso a partir do qual a música das esferas celestes pudesse ser percebida.  O homem não seria capaz de ouvir tal música porque se habituara a ela, assim como os ferreiros se acostumaram com o barulho dos seus martelos

Mentes vigorosas, que se atiraram sem hesitação aos recursos disponíveis para revolucionar a consciência humana, floresceram em todos os tempos.  Pitágoras, dono de um intelecto poderoso, mas essencialmente místico, usava a razão e o método empírico para justificar seus estudos, preenchendo lacunas que permitiriam o desenvolvimento da ciência e da filosofia grega. Assim como na matemática, na música, nossa compreensão das ciências em geral não nasceu de um dia para o outro; remonta a um passado longínquo, cujos fragmentos parecem ilógicos aos nossos olhos modernos, mas trazem pilares do conhecimento ainda vigentes, aperfeiçoados por gerações de pensadores.

O turbilhão de informações da atualidade nos leva a pensar que nada há para ser descoberto.  A física explica como ondas sonoras se propagam, suas freqüências e amplitudes, mas a maneira como afetam o nosso inconsciente é única[ii] e isto é pacífico em nossos dias. A música das esferas é uma bobagem? Se não se sabe que algo existe, é preciso saber o que estamos procurando. Para Pitágoras, música era o reflexo de uma atividade espiritual interior usada para criar estados alterados de consciência, cujo modelo se repetia no Universo. Talvez exista apenas um véu mais ou menos espesso cobrindo certas verdades aceitas pela maioria e isto nos basta para justificar o comodismo e que nada mais há para ser pensado.

Paradigmas existem para serem quebrados. A harmonia do viver, paradoxalmente complexa e simplificada, exige de nós a aparente simplicidade da percepção e o rigor da disciplina para alcançar o estado mental necessário à abertura dos sentidos. Somos responsáveis por legar conhecimento às gerações futuras. A busca precisa existir sempre em nós, enquanto seres em construção, pois lembrando aqui Demócrito, filósofo grego do século V a.C: “Nem a arte, nem a sabedoria é algo acessível, se não há aprendizado


[i] Pitágoras, uma vida – Peter Gorman – Cultrix Pensamento – 1979

[ii] Marcelo Gleiser – Professor de Física Teórica – Folha de são Paulo 12/2008

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