“Caché” de Michael Haneke

Vi finalmente em DVD o filme “Caché” de Michael Haneke. Com sobriedade e elegância, estóica e pacientemente explica-nos plano por plano que não existem verdades mas interpretações diferentes de acontecimentos, ou se quiserem de diferentes “verdades”.

Vivemos perfeitamente alheados da evidência que é estarmos presos a nós próprios com as nossas impressões e interpretações. Não partilhando mesmo assim totalmente do cepticismo de Haneke, acredito com ele que a própria imagem não é mais que uma interpretação pessoal, apreensão de acontecimentos erróneos descontrolados, ou na melhor das hipóteses um McGuffin que carrega com obras como esta. Michael Haneke tem precisamente aquela frieza gélida de Hitchcock, mas o que mais me intrigou em “Caché” foi a lucidez com que Haneke filmou a nossa impossibilidade de apropriação da verdade, como conseguiu daí fazer Cinema, coisa rara hoje em dia…

Autêntico tratado moral, ou se quiserem filosófico, “Caché” foge sempre do óbvio através dos mecanismos da sua constante reflexão métafisica e também (é importante dizê-lo) pelas pontas soltas que deixa propositadamente pairar sobre o filme, para o aproximar da real complexidade e aleatoriedade de tudo o que nos rodeia. Foge assim com firmeza e sabedoria do filme standard hollywoodesco onde muito facilmente poderia ter caído, o que é aliás assumido pelo próprio Haneke nos Extras do DVD. A propósito, não me custa nada imaginar que qualquer dia haverá um desses pretenciosos chico-espertos a fazer um “remake” deste filme. De preferência com a familia ameaçada a salvar-se, mas sem as tais”pontas soltas”. Bruxo…