Cachaça e Construção Social do Gênero

Quando eu era ainda uma criança, com apenas 10 anos de idade, provei pela primeira vez a cachaça. Os efeitos dessa experiência conduzem a diversos rumos. Muitos dos amigos da época destruíram suas vidas por meio da dependência causada pelo uso contínuo e abusivo de álcool. É claro que há uma série de fatores sociais, relativos à oportunidade de construir uma vida melhor, com acesso a educação, emprego, lazer etc. Esses meus amigos fazem parte desse enorme grupo de excluídos. Esse problema é por demais abrangente para ser resolvido num artigo dessa natureza. Deixemos, portanto, para outro momento e concentremos no tema principal, que é a relação entre o uso da cachaça e a construção social do gênero, no caso, da masculinidade.

cachaça na rede

Comemorando com a amiga Adriana, em Brasília-DF.

Quando tomei cachaça pela primeira vez não estava bebendo para “encher a cara”. O significado principal daquele ato, realizado em público, numa reunião de amigos após uma pelada de futebol, era “provar” que eu já era homem. Ou seja, o ato em si me conduzia da condição de criança para o patamar de adulto. Os efeitos dessa transformação são enormes na vida de uma pessoa. Todas as formas de sociedade espalhadas pelo mundo possuem seus métodos de realizar “a passagem” para o mundo dos adultos. No nordeste brasileiro, onde nasci e cresci, o método usado, pelo menos na minha infância, era beber cachaça, coisa de macho.

Ao beber e passar a adotar esse hábito na vida cotidiana, as coisas começam a mudar. Ao neófito são impostas muitas provas. Surge um elemento novo que é a possibilidade de paquerar uma menina, uma das provas mais difíceis de ser realizada. É também o momento de se empenhar em algum trabalho, porque para beber é preciso ter dinheiro, de preferência, oriundo do seu trabalho. É possível ficar nas festas até mais tarde, aprender a dançar, a tocar alguns instrumentos, decorar poesias etc. Aos poucos, vai se construindo a masculinidade esperada pela audiência composta por outros homens, seus amigos, e pelas mulheres, que também criam expectativas com relação ao novo homem que está se formando.

Todo o cuidado é pouco nessa hora, pois o uso abusivo de álcool pode trazer sérias consequências na saúde do sujeito. Não pretendo aqui reforçar discursos moralistas sobre o assunto. Pelo contrário, defendo que é muito importante o contato com essas experiências na formação de qualquer pessoa. Apenas faço a ressalva do cuidado para evitar que algo tão prazeroso e necessário à vida humana se torne numa tortura sem fim.

Hoje (Junho/2013), após 31 anos como usuário de álcool, me sinto à vontade para falar sobre o tema. Passei por várias etapas desse processo de consumo de cachaça associado à construção da masculinidade. Das ressacas infinitas, das dores de cabeça, das visagens psicodélicas ao uso responsável trilhei um longo caminho. A perspectiva da Redução de Danos foi importante orientadora nessa trajetória. É claro que não defendo que o uso de álcool seja necessário na formação dos novos homens. Apenas relato a minha experiência, que foi também a experiência de praticamente todos os meus colegas de infância.

Para finalizar, deixo a sugestão de se estudar mais sobre esse tema. Esse universo tem muito a nos revelar sobre como são formados os homens, suas sexualidades, seus medos e suas ilusões de potência. Para quem já resolveu isso, sugiro apreciar uma boa cachaça, produzida em sua região. Quem tiver uma boa dica, deixe a sugestão nos comentários.

Grande abraço!

http://www.cachacanarede.com