Cachaça, Betume e Palete

Eu vejo por todos os lados: “se for dirigir, não beba”; “se beber, não dirija”; “se beber, não case”. (ok, esse é nome de filme) Mas ninguém nunca, jamais me aconselhou a não fazer artesanato quando estivesse de fogo. Que mãe mais desnaturada a minha, que nunca me fez esse alerta! “Ó, minha filha, nada de fazer arte quando estiver bebendo, isso dá errado, você perde o trabalho todo…”. Eu teria escutado! Mas naaaaão… Deixa a Bia ir fazer a arte dela! Bêbada! Tá certo, jovem…

Foi que era inverno, e nesse inverno eu morava em Camanducaia, no sul de Minas Gerais (ou, no nosso sotaque, “sur de Míns”). E lá faz frio pra dedéu, um frio apavorante que eu nunca senti na vida. Gelado! Isso porque dizem que em Monte Verde o bicho pega mais ainda! Deus me livre… Mas enfim. Quando chegou um bilhetinho lá em casa falando que ia ter festa junina na quadra do bairro, com tudo liberado – inclusive o quentão -, não tive dúvida. Vou me esbaldar! Passei o dia todo lixando uns paletes de madeira pra fazer cabeceira de cama e, quando deu o horário, fui pra quadra.Cabeceira de Palete

Artes e artes

Eu sempre tive uma quedinha pras artes, desde novinha. Lembro quando meu pai me deu um cavalete de pintura. Minha mãe xinga o coitado até hoje porque naquele ano eu quase abandonei os estudos porque só queria ficar ali pintando! Na época a gente morava em Caxambu, então eu carregava o coitado do cavalete pra todo lado, escolhendo cenas pra pintar – e Caxambu tem muito lugar bonito!

Da pintura em cavalete parti pra escultura em argila, mas não era muito minha praia. Fazer esculturas é muito complexo! Não é mais aquela coisa bidimensional, né? Agora eu tinha que trabalhar com o eixo Z também (minha professora de geometria ficaria orgulhosa de me ver falando isso). Voltei pra pintura, mas logo saí e parti com tudo pro artesanato com reaproveitamento de materiais.

E foi nessa que comecei a mexer com paletes de madeira. Supermercados e marcenarias, depósitos de materiais de construção estão sempre descartando estes objetos depois de um certo tempo de uso – ou mesmo após um dano qualquer. E muitas vezes dá pra aproveitá-los para coisas úteis em casa. Minha sapateira, mesmo, era feita com um. E então idealizei uma cabeceira de cama.

Esquenta!

Não cheguei a fazer a cabeceira em Caxambu, mas levei a ideia pra Camanducaia, e lá eu dei prosseguimento ao projeto. Pegaria dois paletes de madeira descartados, lixaria e escureceria usando betume, uma resina asfáltica. Ok, projeto feito, hora de executar.

Só que aí chegou a hora da festa, de noite, e eu estava tremendo de frio. Chacoalhava igual motor de carro quando a marcha é leve demais e ele começa a rebater todo na carroceria, sabe? Era ridículo, mas eu não conseguia parar, por mais agasalhada que estivesse. Minha mãe notou e me trouxe um copo de quentão. Já conhece? É cachaça com canela, gengibre, laranja, limão e açúcar. Ah, e um cadinho de água. Servido fervendo. Uma bomba! Mas o trem esquenta que num é brincadeira. Não se passaram cinco minutos e eu já tinha tirado o gorro e o cachecol, e estava pensando seriamente em tirar o casacão.

Aí veio a quadrilha, e nem vi quem foi, mas me puxou pra ir dançar lá no meio da quadra. Quase morri de tanto rir! Foi divertidíssimo!  Conheci muita gente, e tomei quentão adoidado enquanto a gente conversava. Acho que conheci o bairro todo – só não lembro dos nomes. E fomos madrugada adentro.

Voltei pra casa de manhãzinha, looouca de bêbada e decidida a continuar com os paletes. Meus pais estavam dormindo, então só viram o resultado final: passei tanto betume nos paletes que ele escorria para o chão, e as ripas, que deveriam ser só escurecidas, estavam totalmente pretas. Respingos pelas paredes da área de serviço. Quando vi que meus pais estavam na porta apavorados com aquilo, dei um sorrisão e falei: “tcharaaaaammmm!!”. Eu tinha 19 anos, mas fiquei de castigo e ouvi prosa como se ainda tivesse 11.

Então, gente: se beberem, não façam arte. Isso é importante.