Bob Dylan – I’m Not There

“Im Not There” gera sentimentos contraditórios, para o melhor e para o pior. Se bem que a empresa e a missão fosse bem difícil. Quem vai à guerra… Comecemos pelo melhor.

Bob Dylan

Bob Dylan

Em primeiro lugar como convicto apreciador, gostei da música e da divisão dos vários personagens de Bob Dylan consoante as suas fases, o que denota um conhecimento profundo do realizador Todd Haynes. A forma como se cruzam as variadas vivências e personagens isso Haynes faz magistralmente, muito há sua maneira, como já o tinha feito em “Velvet Goldmine”, sugerindo todo o tipo de iconografias relacionadas com Dylan e depois cruzando-as a gosto, como um bom cozinheiro.

Apreciei Charlotte Gainsbourgh e Julianne Moore a ser Joan Baez. E gostei muito do infelizmente falecido Heath Ledger, que foi o único Bob Dylan que realmente se aproveitou, excelente sem ter de se tornar excessivo, na vontade de puxar a “grande interpretação”. Nem creio que fosse fácil encarnar a fase problemática e cheia de catarse emocional que culminou num dos melhores álbuns da vida de muita gente, o “Blood on The Tracks”. Mas se está lá o personagem, a música, os factos e as vivências, para quê o excesso de trejeitos? Foi por aí que o filme falhou, naquilo em que a maioria dos biopics falha: a excessiva caricaturização dos personagens. É uma epidemia que até agora só não vi em “Control” ou “Walk The Line”, de resto está em todos, como uma praga. Aí destaco Cate Blanchett, onde muitos viram um grande trabalho, eu vi um autêntico desastre, um espalho ao comprido. Não posso mentir: é uma das interpretação mais ridículas, pedantes e pretenciosas que já vi.

Eu conheço bem o documentário “Don’t Look Back” onde se baseia grande parte atuação de Blanchett, e apesar de ali estar um Dylan nervoso e explosivo, aquilo é de mais. Irritou-me ao extremo, mais por Blanchett achar que está ali a fazer um figurão, uma interpretação para a história. É insuportavelmente penoso. E fisicamente até está muitíssimo parecida, não precisava daquilo. Podia ter sido histórico, mas foi mais BD que outra coisa.

O miúdo Marcus Carl Franklin está muito bem, não se podendo pedir muito do personagem Woody Guthrie, Ben Whishaw e Christian Bale também caiem na caricatura, também custa. E Richard Gere então não custa nada, porque não existe sequer. Olha-se para os grandes planos de Gere, o Dylan recluso de “Basement Tapes” e o ator simplesmente não está lá. Dá a ideia que Gere não sabe bem o que está ali a fazer. O que é de mais em Blanchett é de menos em Gere. No melhor pano cai a nódoa daquela música excelente que até arrepia de tão boa que é.

Gente haverá que passará a gostar de Bob Dylan depois de ver o filme. Outros ouvi abandonarem a sala, nem sabiam o que foram ali fazer. E por fim há os tipos como eu, que conhecendo o autor aproveitaram o que prestava aqui e ali e depois foram para casa ouvir Dylan ou então sonharem com um filme que prestasse uma melhor homenagem ao autor.

Um aviso sério: quem não conhecer bem Bob Dylan vai ter uma imensa dificuldade em descodificar “I’m Not There”, só existe uma chave para aquilo: conhecer razoavelmente bem a obra até 1977. Não desistam por isso. Quanto mais não seja por haver aqui um bom ponto de partida para uma das melhores obras do Século XX, para isso esqueçam os trejeitos de Cate Blanchett.