Bitcoin e o M-Pesa – Porque a moeda do Quênia se tornou digital

Ao pensar sobre o futuro do dinheiro, muitos de nós agora, invariavelmente, têm pensamentos sobre o bitcoin. Até onde ele vai? Qual o papel que ele pode desempenhar em nossa vida financeira? Não importa o que você pensa sobre isso, o bitcoin é um excelente plano de fundo para iniciarmos um debate sobre para onde o dinheiro digital está nos guiando.

A África é um lugar onde o bitcoin tem um imenso potencial. Mas o que você talvez não saiba é quão importante o dinheiro eletrônico já é para países como o Quênia. Mas primeiramente, um pouco de informação econômica sobre este país do Leste Africano. O Quênia é uma das maiores economias da região, com um PIB de US$ 41 bilhões de dólares. Entretanto, cinqüenta por cento da sua população vive abaixo da linha da pobreza. Aproximadamente 75 por cento dos quenianos trabalham na agricultura. De acordo com o CIA World Factbook, no Quênia, o “baixo investimento em infraestrutura ameaça a posição de longo prazo do Quênia como a maior economia do Leste Africano.”

Dinheiro digital e o Quênia

O Quênia é claramente um lugar onde o conceito de dinheiro físico começou a sair de moda há alguns anos – e isto provavelmente tem algo a ver com a falta de investimentos em infraestrutura por parte do setor bancário. No Quênia, a maior operadora de telefonia móvel, a Safaricom, introduziu um sistema de pagamentos digitais chamado M-PESA em 2007. O “M” está para o móvel, enquanto “Pesa” é o Swahili para dinheiro. De acordo com o site oficial, em 2012, o M-PESA já tinha mais de 14 milhões de usuários ativos.

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A Safaricom, que detém 70% do mercado móvel do Quênia, permite aos seus clientes enviar e receber dinheiro usando o M-PESA. Os clientes precisam ter apenas um telefone celular e um documento de identificação válido para começar. O sistema usa SMS para permitir aos usuários enviar e receber dinheiro virtual, bem como pagar suas contas com a plataforma. De acordo com a Business Daily África, Vodafone possui o serviço de pagamento, enquanto as licenças são da Safaricom.

Não apenas para pagamentos

Graças ao sucesso do M-PESA como plataforma para pagamentos, o sistema passou a oferecer outros serviços financeiros a população do Quênia. Os usuários podem optar por serviços como abrir contas de poupança ou até mesmo pegar empréstimos com o M-PESA. Isto porque, em 2012, a Safaricom desenvolveu uma plataforma de serviços financeiros mais abrangente chamada M-Shwari. Em uma parceria entre o Banco Comercial da África e a Safaricom, a M-Shwari permite aos seus usuários abrirem contas de poupança e obter microcrédito a taxas bastante atrativas.

Como resultado, os quenianos não precisam ir a um banco, e muitas vezes os microcréditos são concedidos em tempo real. Graças a todas estas facilidades, o serviço tornou-se uma plataforma importante para a economia, com uma taxa de juros de apenas 1% sobre as contas. Segundo dados recentes, 1,6 milhões de pessoas estão usando M-Shwari, sendo que as contas de poupança são, de longe, o serviço mais popular.

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Fonte: Safaricom

Quando os bancos tentam competir…

Os quenianos têm usado o M-PESA porque o sistema bancário tradicional não funcionou para eles. Em vez dos quenianos irem até os bancos, a Safaricom decidiu deixar os bancos irem até os quenianos na forma de um simples telefone celular. Na verdade, o M-PESA foi capaz de prosperar, mesmo com a resistência dentro do país.

O setor bancário no Quênia estava tão preocupado com o crescimento do M-PESA que tentou desenvolver o seu próprio sistema. No final, porém, a indústria teve que começar a trabalhar com Safaricom visto que a adesão em massa ao sistema tornou o M-PESA um poderoso sistema de pagamentos de forma relativamente rápida. Em essência, uma vez que muitos no Quênia já estavam usando o M-PESA, realmente não havia como voltar atrás graças a sua facilidade no uso e seu grande número de usuários.

Ineficiências monetárias

Uma boa justificativa para o uso do bitcoin é a ineficiência relativa do dinheiro em espécie. Trata-se de um sistema que temos utilizado durante muito tempo, desde o momento em que a sociedade havia decidido que o sistema de troca era ineficiente. Hoje nós estamos pagando caro com a movimentação física de dinheiro: é caro para o dinheiro ser transportado, inclusive sua segurança e manutenção.

Quenianos já perceberam isso, e muitos perceberam que usar o papel-moeda do país, conhecido como xelim, é ineficiente por muitos motivos. E quando você pensa sobre isso, verá que eles provavelmente estão certos: é caro para os bancos manuseá-lo, que por sua vez também nos custa dinheiro para utilizar estes serviços. Visto que a maioria de nós já está usando cartões para realizar transações, o que está impedindo muitos de nós a aderirmos totalmente ao dinheiro eletrônico?

E quanto ao bitcoin?

O bitcoin pode ter os mesmos efeitos que o M-PESA teve se uma plataforma de pagamento móvel de sucesso em torno dele for desenvolvida, assim como já estamos vendo sinais disto acontecendo no ecossistema Android. No entanto, este sistema pode surgir a partir de plataformas mais abertas para smartphones, como o fornecido pela Kipochi.

O M-PESA foi capaz de usar sua rede de clientes para obter influência em bancos locais e assinar acordos com os gostos do Western Union para enviar dinheiro para lugares em todo o mundo. Neste momento, o Western Union ainda não está procurando por mais clientes que usem o bitcoin, mas o exemplo do M-PESA é um sinal de que as moedas digitais só precisam de algum nível de adesão para que grandes empresas financeiras se interessem a criar plataformas digitais.

É tudo sobre acessibilidade

Parece quase como se o M-PESA era algo necessário em um país como o Quênia para tornar o uso do dinheiro fácil para as pessoas que não têm acesso aos serviços bancários. No mundo desenvolvido, há ineficiências em relação ao dinheiro, mas elas ainda não são ruins o suficiente a ponto de provocar uma mudança maciça no mundo das finanças.

Há lugares onde este não é o caso. O M-PESA prova que se você dá às pessoas acesso a uma facilidade, elas vão aproveitar. E com o surgimento dos smartphones, especialmente com a adoção do Android no Quênia (ver gráfico), as pessoas terão ainda mais opções, onde talvez o bitcoin ou outra moeda descentralizada seja uma delas.

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Fonte: Statcounter

 

Mesmo Bill Gates ficou impressionado. Em janeiro, ele twittou:

M-PESA no Quênia prova que quando as pessoas têm o poder, eles vão usar tecnologia digital para inovar em seu próprio nome.

O que você acha sobre o M-PESA? Deixe-nos saber o que você pensa nos comentários.

Fonte: CoinDesk