Artista de rua ou pedinte? Qual a diferença?

Você já parou pra pensar que aquele malabarista ou engolidor de fogo que se apresenta em um semáforo pode ser um grande artista?

Sempre que posso, procuro apreciar as diversas manifestações de arte que andam escondidas por nossa cidade (sou mágico e moro em são Paulo). Gosto também de observar as reações das pessoas que são abordadas pelos artistas nos diversos ambientes onde as performances são realizadas.

Eu sempre digo que o aplauso é o alimento do artista. Mas obviamente não podemos viver só de elogios.

Antes de tudo, para aplaudir uma performance o espectador precisa reconhecer o executante como um artista.

Infelizmente não temos a cultura de apreciar e reconhecer os artistas de rua como “verdadeiros” artistas. Em países da Europa, por exemplo, a arte de rua é muito divulgada e reconhecida. As pessoas param para apreciar o artista e, caso gostem do show, pagam o que acham que ele merece.  Aqui as pessoas acham que o artista está pedindo esmolas.

E sabem o que é pior? Na maioria das vezes ele está mesmo pedindo esmolas.

Vejam só o seguinte exemplo: há alguns anos a prefeitura de São Paulo fez um show com o grande Caetano Veloso no centro da cidade para comemorar o aniversário da capital. Na esquina das avenidas Ipiranga com São João, o show consistiu da presença do músico e seu violão. O público foi enorme e o show foi indiscutivelmente ótimo apesar da leve chuva que caía.

O paralelo que quero fazer é: por que o ótimo violeiro da praça da República não é aplaudido com tanta veemência? Ele tem músicas próprias, e são boas.

Será que a resposta é tão óbvia?

O malabarista e o violeiro de rua não são vistos como artistas. Uma parcela de culpa é do próprio público que, como disse, não tem essa cultura. Mas outra parcela é do próprio “artista” que não se posiciona como tal.

O segredo está no posicionamento.

Se um artista se posiciona como pedinte, será visto como pedinte. Peça migalhas e ganhará migalhas.

Já trabalhei com alguns artistas circenses em eventos que, nas horas vagas, trabalham em semáforos. Não tenho nada contra isso, mas acho inadequado esse posicionamento.

Não há como querer ser bem pago em um evento se em semáforos o artista trabalha por migalhas.

Infelizmente, enquanto o nosso povo tiver a cultura de reconhecer como artista apenas quem está na mídia, o grande palco que é a rua estará reservado aos pedintes.

Infelizmente, também, temos que “dançar conforme a música”. Em países desenvolvidos o artista de rua é reconhecido, aqui não. Logo, trabalhar na rua significa pedir esmolas.

E é muito triste que seja assim, pois a rua é uma forma de levar ao público em geral todas as tendências artísticas. Torço para que chegue o dia que o artista de rua tenha o seu real valor reconhecido. E ainda mais: que a rua possa se tornar um grande atrativo e opção de trabalho digno para muitos de nós artistas.

Mas, enquanto esse dia magico não chega, devemos pensar em nosso posicionamento.

Tenham sempre em mente aquilo que querem alcançar.

Meu avô sempre dizia: se você quer pegar tubarões vá pescar em mar de tubarões.

Pense nisso.