Água de reuso: salvação ou pesadelo?

Há muito tempo não se via uma crise hídrica como esta de 2014 e 2015. O sudeste do Brasil, onde dificilmente faltava água, está à míngua, sofrendo com a impressionante falta de chuvas e o calor excessivo dos últimos meses. Em vários locais, o índice pluviométrico – ou seja, a quantidade de chuva que efetivamente caiu naquela região – ficou abaixo dos 40% em comparação com anos em que as chuvas vieram normalmente. Quarenta por cento. E isso porque os reservatórios já estavam baixos desde o ano passado!

A tendência dessa situação é piorar ainda mais, de acordo com os meteorologistas; aí, já viu como vai ser o ano, não é? Seco para muita gente. São Paulo está num momento apavorante, vendo o sistema Cantareira (seu principal fornecedor de água) abaixar o nível dia após dia e já usa o volume morto da segunda represa!

O Rio de Janeiro também já está enfrentando problemas de torneiras secas, assim como outras grandes cidades (e muitas pequenas também). “Mas se os rios e reservatórios estão secando, de onde a água virá então? Estamos todos perdidos?” A solução vai vir daquela água que a gente não quer ver de novo depois que ela vai pelo ralo – ou pior: pela descarga. Sim, a solução mais rápida virá da reutilização da água que jogamos fora todos os dias. Haja cartucho de polipropileno pra tanto filtro!

Eca!! Que nojo!!

Naturalmente, essa é a primeira reação das pessoas quando se fala em água de reuso. Realmente a água que vai chegar às estações de tratamento não chega bonitinha! É a água que usamos para escovar os dentes, para lavar a louça, para tomar banho, para dar descarga (e vai saber o que é que foi levado por ela, não é?…). Dá, sim, uma sensação de nojo – e já se viu gente com ânsia só de mencionar a ideia!

ETAR-(Estação-de-Água-de-Reuso)Mas a verdade é que é perfeitamente possível recuperar a qualidade dessa água, por menos que possa parecer. A tecnologia já existe há bastante tempo e já foi testada e aprovada com testes pra lá de rigorosos (afinal, estamos falando de saúde humana aqui). Inclusive, já existem estações de tratamento funcionando, prontas para entrar em ação quando for necessário. E vamos concordar que necessário… já é.

E esse papo de polipropileno aí?

Isso mesmo, vamos falar da metodologia, mas de um jeito resumido. A primeira coisa é captar e canalizar o esgoto doméstico (o industrial precisa de tratamento diferente), direcionando-o para as estações de tratamento de esgoto (as chamadas ETEs). Lá, as partes sólidas são retidas nos primeiros tanques e, nos seguintes, a água recebe tratamentos onde partículas menores são decantadas e removidas deixando-a mais “pura” (ou menos suja). Quando ela alcança limpidez suficiente, é devolvida para os rios. Isso já existe em muitas cidades. Mas agora, ao invés de devolvê-la, essa estação direcionará essa água para os equipamentos da estação de tratamento de água de reuso, que contam com outras estruturas de filtragem. Até esse momento, a água está limpa mas ainda não é potável.

Ao-longo-do-tratamento-água-passa-pelos-cartuchos-de-polipropileno.Ao chegar na estação de tratamento para água de reuso, a água é submetida a processos de filtragem e ultrafiltragem, e é aqui que entram os cartuchos de polipropileno. São filtros feitos com uma material microporoso – na verdade, seus poros são muito mais finos do que aqueles dos filtros de barro. Depois desse processo, a água sai quase pura. Para garantir que está totalmente segura para o consumo humano, ela ainda passa por filtros de carvão ativado (que retira o odor e qualquer gosto residual da água) e membranas de osmose reversa.

O nome é complicado, mas essa é a última fronteira para qualquer micropartícula que possa ainda estar presente na água. Através da aplicação da pressão, a água entra em contato com essa membrana, que permite que a água passe, mas o que não for água ficará preso nela.

Agora sim! A água está pronta para beber, de novo, com qualidade garantida e sem risco nenhum para a saúde. É água de reuso. Mas pode confiar.