A Próxima Herdeira do Trono do Olimpo

Athena entregando à humanidade sua alma. Prometheus esculpiu os homens e ela lhes deu o sopro da vida.

Athena entregando à humanidade sua alma. Prometheus esculpiu os homens e ela lhes deu o sopro da vida.

Deusa nascida da cabeça do rei dos deuses olímpicos, senhora da guerra justa e da sabedoria, portadora da Vitória, que sempre leve nas mãos, tornando-a invencível, esta é a Deusa Athena. Athena foi uma das deusas mais importantes da Grécia, uma das mais cultuadas e atualmente conhecidas deusas grega.

Porém, como acontece com a grande maioria do que é de conhecimento público, ela é pouco compreendida. O panteão helênico formou-se ao longo do tempo, incorporando novas divindades, adaptando-as conforme se expandiam. Nesta expansão houve um confronto de culturas. A matrifocal e matrilinear com a patriarcal. Este choque também se evidenciou nos mitos e nos deuses.

Na tradição patriarcal Zeus, filho de Crhonos destronara seu pai, assim como Crhonos fizera com seu próprio pai, Urano. Gaia, avó de Zeus fez uma profecia, de que o filho dele com Métis, a deusa da prudência seria o próximo a destroná-lo. Temendo perder o seu trono, o rei dos deuses vai até Métis para conversar com ela, e acabam tendo uma relação amorosa.

Então Métis anuncia estar grávida, e a profecia de Gaia ecoa em seus ouvidos, perturbando sua paz. Cria um jogo com a deusa, em que cada um deveria se transformar em um animal, e ela se transforma em uma mosca, permitindo que Zeus a engula. Seguro de seu futuro fica aliviado por não mais correr o risco de ser ameaçado por um usurpador.

Porém os planos não saíram como o esperado. Com fortíssimas dores de cabeça, o deus dos céus pede a seu filho, Hefesto, deus do fogo e das forjas, para lhe abrir a cabeça com um machado. Atendendo ao pedido de seu pai, abre-lhe a cabeça com o machado e dela nasce Athena, completamente vestida e armada.

Deusa vs Deus

Este mito faz uma alegoria da assimilação matriarcal pela patriarcal que passou a dominar a cultura dos povos subjulgados. Este sistema antigo, em que a mulher tinha o principal destaque precisava ser minado e destruído, e com isso surgiram às guerras divinas, para destruir a ameaça ancestral. Uma ameaça que poderia tirar o trono do rei dos Deuses. Neste meio que surgiu Athena, a mais fiel e comprometida com a causa do pai. A filha do pai, sem mãe, nascida de unicamente do masculino, permanecendo eternamente virgem e intocada.

Sincretismo entre Athena e Medusa

Sincretismo entre Athena e Medusa

O nome de Athena pode ser compreendido como A Thea, A Deusa. Seu segundo nome, Pallas, significa virgem, uma das três deusas virgens. A figura da deusa Athena já existia, muito antes da incorporação paterna. Os mitos divergem neste ponto, mostrando a arcaica deusa com cabelos de serpente, porte majestoso, misturando-a a própria medusa, monstro que a todos petrifica, muito diferente da deusa armada, sempre com armadura e intocável.

Uma antiga inscrição mostra Medusa sendo sincretizada com a deusa Athena, tornando-as inseparáveis: “Mãe dos Deuses, passado, presente, futuro, tudo o que foi, e será”, esta mesma frase foi usado posteriormente para designar o deus cristão. Uma passagem que explica o porquê de todos que mirarem os olhos dela são mortos diz: “nenhum mortal foi capaz de levantar o véu que Me oculta”, pois ela é a própria morte.

A serpente, na maioria das culturas está ligada ao aspecto feminino, e portanto demoníaco, por isso criaram-se duas versões da antiga deusa, uma a temer e a outra a se seguir.

A Deusa da Guerra é uma mulher, pois somente uma mulher pode parar a estupidez de um homem frente os ardores de uma guerra. Se ela fosse um homem, dificilmente um guerreiro a escutaria com o furor da guerra lhe queimando o peito. Ela está sempre associada aos grandes heróis, que lhe pedem auxílio. A Deusa destinada destronar o pai, torna-se sua mais próxima e leal serva. Como diz o ditado, mantenha teus amigos por perto, e teus inimigos mais perto ainda.

Diferente de seu irmão, Ares, Deus da Guerra sanguinolenta, por causas injustas e egoístas, deus dos instintos e da força bruta, Athena representa a Guerra justa, das batalhas calculadas e estratégicas. Nunca entra em uma causa que não seja para ganhar.

Foi castrada, nunca tendo acesso aos segredos mais sagrados da essência feminina, como a procriação, o mistério da vida. Permaneceu eternamente virgem, supostamente para preservar-se dos ardilosos efeitos do amor, que confunde a mente, a sabedoria, nos faz tolos e impulsivos, e como a deusa da razão e da sabedoria pode, em algum momento, ser imprudente, perder a sabedoria? Porém, muito além disso, ela foi obrigada a estar ao lado do pai, pois ela era sua maior ameaça, e deixá-la aproximar-se do seu lado mulher, procriadora da vida, torná-la-ia ainda mais perigosa.

Ela abdicou de sua essência feminina em favor da masculina, talvez por ser a Deusa da Sabedoria, e saber que seria o mais prudente a se fazer, ou se curvava a eles, ou caía totalmente no esquecimento, ou seria aniquilada. Embora Zeus soubesse que destruir a existência do poder feminino seria um grande fracasso, temendo pelo futuro e pelo embate, domesticou o espírito feminino. Castrando a próxima herdeira, a portadora da Vitória, sempre invencível.