A Porta das Conexões

Olá, tudo bem, como tem passado? Que linda que você está! Nossa como você emagreceu! O que você faz pra ficar tão bonita? Fiquei feliz com a sua promoção. Não, é impressão sua ninguém te odeia! Ficou muito bom! Estas são apenas algumas entre outras hipocrisias que reproduzimos diariamente. No mundo em que pensamos ser real, este procedimento é imprescindível para nossa sobrevivência. No entanto, temos que obrigatoriamente deixar a hipocrisia de lado, caso contrário, não seremos sinceros para desconectarmos totalmente e isto nos impedirá de seguir em frente, pois enquanto ainda estivermos carregando qualquer tipo de preconceito não estaremos prontos para prosseguir. Vamos entrar?

Não se espante com o que verá. Não são pessoas, e tão pouco robôs, estes corredores estão cheios de manequins muito semelhantes aos seres humanos, mas são apenas Avatares. Não se assuste com o grande número, atualmente temos um pouco mais de seis bilhões de exemplares. Sei o que está pensando! Como vou me encontrar aqui? Siga até o final do mini corredor da direita, depois coloque sua mão no identificador. Abriu uma caixa de texto na tela? Agora digite em seu pensamento Ctrl + F. Digitou? Agora escreva seu nome. Na tela, você verá a localização exata do seu avatar. PS: Você saberá que está se aproximando, quando reconhecer outros Avatares que fazem parte do teu ciclo social. Lembre-se, apesar da semelhança, são apenas Avatares, será inútil tentar se comunicar com eles.

(Algum tempo depois…) Bom, você seguiu as orientações corretamente, então deve estar em frente ao seu Avatar. Não se assuste, realmente é impressionante, mas você irá acostumar-se. O que te parece? Eu sempre achei parecido com uma central telefônica dos anos 40. Todos estes fios são os plugs que te falei. No entanto quando estamos naquele mundo eles se apresentam de várias formas, visíveis e invisíveis, físicos e abstratos, sociais e culturais, entre outras.
Plug cultural, cabo lilás.

Observe este cabo lilás, ele representa o cordão umbilical. Desde a concepção somos alimentados por plugs e conexões com o mundo externo que nos cerca. Nosso primeiro plug é o cordão umbilical, ou seja, mal nos tornamos um zigoto, e as influencias externas já começam a afetar nossa recente vida. Se mamãe isto, acontece aquilo! Assim, começam a serem inseridos os primeiros softwares em nosso HD, ou seja, todas as informações que recebemos através desta relação com o externo vão para o nosso depósito de experiências, que se transformarão em nossas subjetividades. (A subjetividade é o mundo interno de todo ser humano, composto por nossos sentimentos e pensamentos sob a influência do contexto social, levando em conta valores, culturas, religião, etc.) Retire este plug. Afinal de contas quem não suporta o cheiro do alho é a sua mãe e não você. Quem tem medo de altura é ela e não você! Existem muitos filhinhos e filhinhas da mamãe e do papai, que não conseguem seguir seu caminho, pois estão ancorados neste plug. Desligue agora. Imediatamente. Daqui pra frente, seus enjôos serão seus, da mesma forma que os medos, as vertigens e tudo mais que você acreditou até hoje ser sua infeliz herança.
Plug cultural, cabo vermelho.

Não percebemos, mas recebemos outro plug assim que nascemos, somos conectados à cultura, que ainda não é minha, e tão pouco foi criada por meus pais, no entanto a partir de agora, eu tenho a missão de levá-la a outras gerações. A primeira influência cultural que recebemos é a “Sexualidade”. Quando papais e mamães descobrem o sexo do seu rebento, logo assimilam que o sexo representa sua sexualidade. “Na maioria das vezes”, eles acertam e por isso logo procuram inserir em seu bebe, informações coerentes com suas concepções. A sociedade sempre fez questão de diferenciar os gêneros. Talvez com o objetivo de afastar a idéia de que somos todos iguais. O azul é a cor do céu, a coisa mais poderosa e inatingível, exatamente como os homens eram vistos nas primeiras civilizações. Depois de certo tempo, as crianças do sexo feminino foram associadas à lenda européia, de que as meninas nasciam dentro de rosas cor-de-rosa, por isso adotaram a cor rosa.

Contudo não são somente as cores que são inseridas pela conexão sexo-sexualidade do plug cultural. Este cabo, que tem a cor vermelha, leva valores, objetivos, sonhos, estigmas e ritos sociais, enfim uma gama de informações e conceitos preparados e difundidos para cada sexo de forma distinta. Porém, na maioria das vezes, não é sempre! Existem muitas pessoas que sofrem, pois seu sexo não é compatível com sua sexualidade. Em virtude disto, tentam se esconder, pois sempre foram carregadas de informações conflitantes e equivocadas. Uns se submetem, vive uma verdade que outros criaram em detrimento da sua própria realidade. Na maioria das vezes são pessoas frustradas e infelizes. Não conseguem viver integralmente uma vida socialmente correta, pois não conseguem enganar a si mesmo. Outras se revelam e se negam a viver uma realidade diferente da sua. No entanto, qualquer tentativa de viver uma realidade diferente daquela socialmente correta, terá que estar preparado para ser rotulado e diferenciado dos demais. Se você estiver preparado para resistir à uma sociedade que pensa assim e ignorar o que te disseram, que era errado, uma aberração, uma afronta a “DEUS”, desligue agora o cabo vermelho que está sob o olho esquerdo do seu Avatar.

Sem o peso, socialmente imposto aos que não concordam com certas regras por ela imposta, você vai sentir-se um pouco mais leve, pois a medida em vamos desconectando os cabos, seus pré-conceitos vão desaparecendo. Sua estatura também vai diminuindo, para depois crescer de forma correta, por isso vamos desconectar primeiro os cabos que estiverem mais alto. Mas hoje chega! Você já progrediu muito e lembre-se daquilo que falei, suas desconexões devem ser lentas e graduais. No próximo texto avançaremos um pouco mais, porém se suas convicções e conceitos são inabaláveis em certos assuntos, sugiro que desista agora da nossa viagem, pois para onde vamos não há lugar para absolutismos. Por isso pense bem! Até breve.