A Matança do Boto Cor-de-rosa

A Matança do Boto Cor-de-rosa

A Matança do Boto Cor-de-rosa

É impressionante a capacidade de engano que tem uma lenda, ou uma crendice popular. Na Amazônia, região riquíssima em vida, pulsa um forte coração auto-sustentável, desde que o homem não ponha as mãos nele. Absurdamente, ocorrem muitas mortes de um dos mais significativos símbolos daquela região e do país: A do boto cor-de-rosa, e os motivos são os mais descabidos que se possa conceber, e partem na sua maioria das lendas em torno do animal e das crendices enraizadas na população local, as quais vêm sendo passadas de geração a geração, de mãe para filha, principalmente.

Tais lendas e crendices são fortalecidas e ganham corpo, na medida em que as mulheres crêem que aquele mamífero, super simpático e dócil, pode engravidar as moças como que por encanto, e as jovens são aconselhadas por suas mães a não entrarem na água do rio quando estiverem menstruadas, de modo a evitar o seu ataque. Os homens crêem que o bichinho é mau e que leva as pessoas embora, além de ser visto como uma verdadeira praga, que come os peixes que eles teriam de pescar para se alimentar, e que ainda zomba da cara dos pescadores.

Vi relatos de pescadores que simplesmente lhes metem os arpões por pura maldade, pois detestam os animais. Centenas, talvez milhares de botos foram mortos para que a sua carne fosse utilizada como isca para capturar uma espécie de peixe chamada piracatinga, que alcança um elevado preço em mercados do país, onde é considerada especiaria e é também exportada para Bogotá, na Colômbia onde é muito apreciada.

Técnicos do Ibama já tentaram convencer os pescadores a substituir a carne do boto pela carne de porco para apanharem a piracatinga, mas os pescadores não concordaram, pois, já haviam feito esta experiência no ano passado e não deu o resultado esperado, então, voltaram a matar os botos. Se as autoridades brasileiras não se compadecerem em buscar a preservação desta marca nacional, deste símbolo maravilhoso de nossa República, vamos perder em breve uma de nossas mais importantes identidades, especificamente da Amazônia brasileira. Mata-se o boto, matam-se as lendas e as crendices. Tudo acaba.