A Falta de um Dente da Frente

Clarice Lispector, uma das mais importantes e renomadas autoras brasileiras, em seu poema intitulado “Estrela Perigosa”, diz em certo momento: “Sinto a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excrucitante”.

Somente uma mulher como Clarice, de uma sensibilidade fora do comum, poderia fazer uma comparação tão feliz quanto esta, utilizando como exemplo a falta de um dente para tornar palpável aos seus leitores um sentimento tão amplo e difícil de explicar como a saudade de quem se ama.

A falta de um dente na frente é excrucitante, ou seja, é algo pungente, doloroso e torturante para uma pessoa. Fico fascinada ao perceber o valor que o dente tem, pois esta pequena estrutura anatômica do corpo humano guarda em si um universo de significados que ultrapassa a barreira odontológica e chega a aspectos mais profundos do sentimento do indivíduo.

O que significa a falta de um dente na frente? São tantas as implicações! Numa primeira análise racional, podemos pensar em desarmonia do sorriso, alteração do posicionamento da língua ao falar, dificuldade para se alimentar e grande prejuízo estético. Mas sabemos que vai muito além, pois psicologicamente não ter um dente na frente significa perder uma parte da alegria de viver, ter vergonha de sorrir, ter dificuldade nos relacionamentos e sentir-se inferiorizado e fragilizado perante a sociedade.

É mais ou menos assim: não sabemos conviver com a saudade, assim como não sabemos sorrir sem dente. Ambas são dores sentidas em cada minuto do dia e da noite pela presença do vazio, da falta, do não. Tanto a saudade quanto a falta de um dente significam perder um pedaço da gente.

Dra. Thaís Borguezan é cirurgiã dentista formada pela Faculdade de Odontologia da USP. Atualmente atende em seu consultório particular na cidade de São Paulo na Bela Vista, próximo ao metrô Trianon Masp.