A Canonização de João Paulo II

Via de Mandrione

Trago muitas lembranças dos 10 anos em que vivi em Roma. Inclusive adotei uma rua. Me apaixonei por ela e tomei posse de seu asfalto, de suas casinhas humildes, dos resto do muro que circundavam a capital.

Chama-se Via del Mandrione e está localizada entre duas artérias vitais da Cidade Eterna:

A esquerda via Tuscolana que aponta em direção à região montanhosa dos Castelos Romanos, onde o papado, na cidade de Castelgandolfo, possui uma casa de verão. A região é toda pontilhada de cidadezinhas antigas como Rocca di Papa, Rocca Priora e tantas outras, aconchegantes e deslocadas no tempo.

A direita temos via Casilina que nos leva para o sul do país passando por inúmeras cidadezinhas desconhecidas do turista eventual. Ela vai serpenteando de lá e de cá. Inadvertidamente ela desaparece, assume um outro nome mimetizando-se à paisagem, para retomá-lo alguns quilômetros adiante.

Já a minha (!) via del Mandrione nasce em Porta Furba, sobre via Tuscolana e vai morrer alguns quilômetros adiante, dentro de Roma, na via Casilina Velha. Colocada ali entre estas duas estradas de tráfego intenso e caótico, é uma ilha de paz e tranquilidade.

Puxei o tema falando de via de Mandrione e seus arredores não para demonstrar um (falso) eruditismo – estou longe, anos-luz da erudição – mas para ambientar o artigo e o leitor a um fato ocorrido recentemente na Itália:

O Vaticano

A canonização do Papa João Paulo II.

Nada contra. Sei dele o que a maioria de nós sabe. Não possuo nenhuma informação secreta que abone ou desabone a canonização.

Se muito, o achava simpático em medida inversamente proporcional ao papa atual, a antipatia em forma de gente. E os olhos! Meu Deus os olhos de Bento XVI me transmitem uma sensação de gelo!

João Paulo II possuía um carisma todo especial e transmitia uma sensação de carinho, de ternura, de “ó, eu me preocupo contigo”. Quando falava, quando discursava, era como se falasse diretamente ao coração das gentes.

Não, nada contra. Principalmente porque não me toca, uma vez que não sou católico e que, a bem da verdade, nem religião tenho.

Não, nada contra. Apesar de suas ligações notórias com o padre mexicano Marcial Maciel, Paul Marcinkus e Roberto Calvi, diretor do banco Ambrosiano que faliu.

Não, nada contra apesar da virada conservadora após os ventos novos produzidos pelos papas João XXIII e Paulo VI.

Não, nada contra apesar da pressa inaudita em canonizá-lo, não respeitando os cinco anos para a iniciação do processo.

Nada contra. Porém me pergunto e perguntarei sempre: já não bastam tantos – tantíssimos! – santos que a igreja católica possui?

Carambeira!

Peço de antemão desculpas aos católicos, mas não seria uma jogada de marketing do Vaticano num momento em que a Igreja perde adeptos em todo o mundo? Deus necessita mesmo de um exército de santos, santas, beatos e beatas? Ou seria o homem, sempre o homem, que busca incessantemente pelo divino? Um desejo inexaurível de “tocar” a divindade, fazendo-se capaz de “criar” santos com base em premissas e normas estabelecidas por ele mesmo e que ele mesmo desrespeita?

De quem é a culpa disso? De Deus, naturalmente!

Ele criou o mundo, e o universo, e as estrelas, e as galáxias, e o canto dos pássaros e se afastou. Foi para um longe insondável e intransponível. Desde então a gente, na tentativa insana de preencher este vazio – o nada absoluto é inconcebível para a mente humana – cria seres imateriais à revelia Dele.

Buscamos sempre alguma coisa para “endeusar” e preencher o vácuo: às vezes um santo, às vezes um roqueiro.

O papa João Paulo II, agora beato, é apenas mais uma pedrinha que pavimenta a longa e infinita estrada em direção ao Criador.

Dizem as más línguas que o Michel Jackson também.

Como das outras vezes aqui embaixo tem a imagem de um e-book. Se faz cômodo para você, caro leitor, clique no Link, Caso não a gente se encontra, se for da vontade Dele, no próximo artigo.